Há dias que ando às voltas com o "Sermão de Santo António aos Peixes" do grande António Vieira, a quem, não por acaso, Pessoa chamou o "Imperador da Língua Portuguesa", apesar de os mais jovens não lhe reconhecerem outro qualificativo senão o de ser um "pastel" que não dispensa a orientação de um dicionário avançado nem o esforço redobrado de interpretação. Ando às voltas, dizia eu, com o sermão que, confesso, há pelo menos três anos repousava tranquilamente na estante lá de casa à espera da minha entrega voluntária que, por força de mil e um motivos, tardaria em chegar, caso imperativos profissionais não impusessem a sua leitura neste início de ano letivo. E ainda bem que a impuseram, pois a sua análise tem sido uma deliciosa (re)descoberta do valor intemporal das repreensões que o orador seiscentista fez aos colonos de S. Luís do Maranhão, no Brasil, e que hoje, à luz da atualidade da Nação, continuam a encaixar com uma luva nos portugueses - inclua-se os madeirenses - que, mesmo já não sendo colonos, mantêm a atitude de donos do mundo. Eu explico, eu exemplifico. Diz Vieira que os homens, tal como os peixes, se comem uns aos outros. Pior: os grandes comem os pequenos, o que significa que, para alimentar um grande, são necessários cardumes de pequenos. Brilhante analogia que, deixando de parte o sempre controverso valor semântico do verbo em causa, continua a prevalecer. Ou haverá hoje quem ainda não se tenha sentido comido na verdadeira aceção da palavra? Se não, vejamos: ao funcionário público, comeu-o o Estado; ao trabalhador do privado, come-o o patrão; ao cidadão comum, come-o uma carga de impostos. Parafraseando o prosador em revisitação, ainda não nos comeu a terra e já nos tem comido toda a terra… E aos grandes? A esses, ninguém os come. Mas há mais. Infelizmente. O homem, neste caso o português, conforme particulariza o nosso missionário, gosta muito de si próprio. Chafurda na sua vaidade e ignorância, preferindo ostentar riqueza a produzi-la. É isso mesmo: antes parecer rico e ser endividado do que maltrapilha sem dívidas. Que o digam os peixes que nadam por aí gastando o que não têm, mas sempre granjeando a bajulação dos que os julgam pelas aparências. Sim, porque o português vive do parecer. Há dias, por exemplo, acompanhei uma amiga a uma das instituições bancárias da nossa praça para simular um crédito à habitação. Gosto singularmente desta minha amiga, porque, apesar de pertencer à reduzida casta de famílias com dinheiro nesta Região, é de uma simplicidade franciscana que se reflete na sua forma de estar na vida. Ora bem, chegadas ao dito banco, tirámos da senha e aguardámos. Faltavam cinco clientes e 40 minutos para o almoço. Esperámos e esperámos. Quando finalmente chegou a nossa vez, dirigimo-nos ao balcão de senha em punho e sorriso nos lábios. Os dois funcionários de serviço endireitaram as gravatas, arrumaram a papelada e, com um olhar de sobranceria, saíram porta fora sem uma palavra. Iam almoçar e nós, se calhar por estarmos de ganga e ar descontraído, que voltássemos mais tarde. Se quiséssemos, claro está. Afinal, não tínhamos pinta de peixes graúdos. Vieira chamar-lhes-ia, aos tais funcionários, roncadores, devido à sua arrogância, ou voadores, devido à sua presunção, ou talvez pegadores por se quererem pegar aos costados dos grandes peixes; eu, por mim, chamar-lhes-ia simplesmente idiotas porque, à conta de não perderem o almoço, perderam um empréstimo de 400 mil euros… Tipicamente português, não? Num Portugal de gente igual a si própria, não importa o século nem o lugar nem a conjuntura, porque, como sugeria o jesuíta, aos portugueses não há quem os converta. Nem Jesus Cristo nem os pregadores nem a crise. Artigo escrito de acordo com a nova grafia
Eker Sommer