Não tenho muitas dúvidas. Hoje em Portugal há, pelo menos, três tipos de observações comuns. Primeiro: o País bateu no fundo, porque nada funciona; segundo: o aparelho produtivo estará eventualmente paralisado devido a uma greve geral que nada resolverá para o lado dos trabalhadores; terceiro: os empresários e investidores estão assustados, porque as perspectivas de insolvência dos seus negócios é, cada vez, mais real, porque a irresponsabilidade dos sindicatos é incompreensível num período em que todos devíamos estar unidos a trabalhar para, sem olhar a sacrifícios, recuperarmos Portugal. E é curioso que, qualquer um de nós, pelo menos os que têm uma opinião equilibrada e tolerante chegará a conclusões semelhantes. A greve, um direito dos trabalhadores em qualquer país que assuma um regime democrático, pode ser uma arma fundamental, mas também “letal”. Dá-lhes o direito de afrontarem o poder político, face a decisões que colocam em causa os seus direitos e regalias, e de afrontarem os patrões perante atitudes de espezinhamento dos seus direitos ou desconsideração do seu esforço de trabalho. A questão está em saber utilizá-la ou como utilizá-la. Os trabalhadores portugueses não têm condições ou espaço para lutar através das greves. As classes proletárias estão empobrecidas e parar de trabalhar significa menos rendimento. Admitimos que a maioria do patronato irá esquecer a falta ao trabalho no dia de hoje. Ao fim e ao cabo, em todos os sectores os parceiros estão indignados com a situação a que o País chegou. Culpa de alguns, mas de todos, porque nos deixámos embarcar numa crise anunciada. É provável que dividamos culpas, mas que mostremos que acima de nós outros existem a quem devem ser assacadas as responsabilidades… À boa maneira portuguesa. E dizia que os trabalhadores portugueses não têm condições de sobreviver a greves porque os sindicatos são fracos, porque as receitas dessas organizações são poucas ou reduzidas, porque a militância é cada vez menor, porque as despesas administrativas são elevadas, face aos números de militantes, e porque existem muitos sindicalistas em tempo inteiro a receberem ordenados interessantes das estruturas sindicais que os empregam. Daí que as greves decretadas pelos sindicatos com mais trabalhadores apelem à defesa dos direitos sem garantir a protecção efectiva ou as perdas dos que resolverem aderir. Apenas garantindo a defesa jurídica daqueles que, eventualmente, possam ser prejudicados pela entidade patronal, por passarem a ser olhados de lado, depois de justificarem as suas faltas com uma greve. A greve geral de hoje, espera-se, deverá ter a maior participação dos últimos tempos. Na perspectiva dos sindicatos e de uma expressiva parte da população trabalhadora o País está na bancarrota, o desemprego cresce em cada dia e as opções tomadas pelo poder político não irão melhorar a vida dos Portugueses, antes exigir mais sacrifícios e diminuir o poder de compra e o valor real dos salários, que sofreram cortes face à imposição de novos impostos e a horários de trabalho mais extensos. Perante a situação, alguns dirão que a alternativa é a greve; outros adiantarão que é preciso trabalhar mais para recuperar o País. Mas é interessante verificar que as greves funcionam com mais resultados, quando decretadas por classes profissionais que auferem melhores salários. Só essas poderão aguentar um braço de ferro com o patronato ou com os governos com menores implicações nos seus rendimentos. É impossível pensar que um trabalhador normal que recebe pouco mais que o salário mínimo desperdice quatro ou cinco dias do seu salário numa greve. No final do mês teriam repercussões gravíssimas. Isso não será o caso de um controlador de tráfego aéreo ou de um piloto da TAP, por exemplo, que ganham salários mensais da ordem dos três a oito mil euros e que continuam a reivindicar mais ‘benesses’ e a forçar os Portugueses a lhes pagar mais, porque tiveram a arte e o engenho de ser admitidos em profissões de risco, que exigem, na verdade, melhor preparação e implicam com esquemas de segurança que não podem ser deixados ao acaso. Os outros são a raia miúda, que ganha mal, que não tem direito a saborear a greve, nem pode dispensar um dia de salário, porque em casa já falta quase tudo. É este o País em que vivemos, são estes os sindicatos que temos, por vezes meros organizadores de eventos de rua, ruidosos, mas sem força. Tudo continuará na mesma, até que alguns sindicatos deixem de ser dominados pelos partidos, ou com eles façam pactos nas costas dos trabalhadores. Precisamos produzir mais, sem demagogias, e sem vivermos atormentados neste instinto de vingança de que os precedentes nos atiraram para o abismo e que estes não serão melhores, e para lá nos conduzem também. Não perceberam ainda que cada dia que se pára, seja para o que for, é menor a produção que sai das fábricas, é menos o trabalho que se prepara, é menos o que se faz e se despacha… Ala que se faz tarde! Estejam descansados os sindicalistas: já por essas bandas andei e continuo a pagar as minhas quotas. Nada contra, mas há coisas que não podemos esconder, nem com as quais queremos pactuar neste tempo de dificuldades. Ouvi ontem João Proença, líder da UGT, e Carlos César, presidente do Governo Regional dos Açores, sobre a greve de hoje. Recomendo a leitura ou audição das suas declarações. O País não bateu no fundo. Alguns de nós é que descemos muito baixo, perdemos auto-estima e não queremos encarar o futuro da forma como ele se apresenta. A indignação e a greve são direitos, mas há mais caminho e o futuro não se ganha carpindo mágoas sentados na melhor sombra ou, o mais provável neste tempo, abrigados da chuva ou amparados do frio.