Hoje, dia 24.11, a Madeira perde duas escalas de navios de cruzeiros em consequência de uma greve. Não deixando de questionar a justeza das suas reivindicações, nas actuais circunstâncias do país, não posso também deixar de constatar que os grevistas, olhando apenas para os seus direitos, se esqueceram de todos aqueles que, sem direitos adquiridos para além do seu trabalho diário, vivem desta actividade em crescimento. Apesar dos muitos apelos ao bom senso, confirmou-se o pior, ou seja, que não seria possível assegurar os serviços mínimos necessários para as escalas dos navios “Orchestra” e “Constellation”. Realçando todos os esforços e apreensão da APRAM em relação a esta matéria, impõe-se que manifeste a minha enorme preocupação, racional e desprovida de alarmismos, pelas consequências que a greve terá: a) NO IMEDIATO, com o cancelamento destas 2 escalas, perdemos cerca de 5.500 passageiros, 2.300 tripulantes, num total a rondar os 7.800 TURISTAS que teriam despendido na Madeira uma quantia a rondar MEIO MILHÃO DE EUROS de forma transversal por um número significativo de beneficiários que vão desde a Administração dos Portos, aos seus funcionários, aos Agentes de Navegação, Agências de Viagens, Guias Turísticas, Autocarros de Turismo, Taxistas, Restaurantes, Comércio, Bordados e Vinho Madeira, entre outros. b) NO MÉDIO LONGO/PRAZO as preocupações são ainda maiores e assentam na consciência da conjuntura económica de extrema gravidade em que o País e a Europa se encontram, e que irá manter o quadro de necessidade de políticas de grande austeridade orçamental, condições que, mantendo-se esta postura, fará supor que assistiremos a mais greves. A confirmar-se a manutenção desta inconsciência, este sector dos cruzeiros ficará inevitavelmente agarrado à imagem da Grécia com o desfecho já visto, neste país, de cancelamentos de escalas atrás de escalas. Não é aceitável que os direitos de alguns prejudiquem todos, até deles próprios, pois que ao colocarem em risco esta actividade vão acabar, em boa parte, por colocar também em risco a necessidade dos seus postos de trabalho. Não é aceitável que esta greve leve a que as companhias de cruzeiros sejam sujeitas a reclamações por parte dos seus passageiros por via da alteração de itinerário; que por esta via ESTEJAMOS A BENEFICIAR OS NOSSOS CONCORRENTES, em particular, o Porto de Tenerife; que seja posto em causa todo um árduo trabalho desenvolvido nos últimos anos e que permitiu ao Porto do Funchal passar das cerca das 100 escalas para 300 e, por fim, que se sujeite a que muitos sectores de actividade que vivem desta indústria vejam as suas receitas altamente afectadas, podendo ter de vir a dispensar funcionários no futuro. Não nos devemos esquecer que a Madeira viveu em 2011 os benefícios da instabilidade no Médio Oriente e Norte de África e que estas greves nos irão colar à imagem desses países, comprometendo seriamente a nossa competitividade turística. Hoje a actividade dos cruzeiros representa cerca de 50 MILHÕES DE EUROS DE RECEITAS ANUAIS para a região, que acabam por beneficiar de forma directa e indirecta toda a população. Ora num momento em que se prevêem tantas dificuldades para a economia da região, não é aceitável esta irresponsabilidade. A opção por mais greves terá como consequência a reprogramação, por parte das companhias, das suas escalas para 2013 e depois ninguém se admire ou fique “alarmado” com o facto de perdermos 40 ou 50% das escalas e, por essa via, milhões de euros em receitas. Os direitos conquistam-se pela competitividade – qualidade, em todas as suas variáveis, gerada ao cliente - pela produtividade e consequentemente pela geração de receitas que os garantam. Os direitos conquistam-se com profissionalismo e responsabilidade. Os direitos conquistam-se quando nos tornamos mais responsáveis e competitivos que os países e regiões que, connosco concorrem. Há direitos quando há dinheiro que os sustente. Há direitos quando há a percepção que a sua natural efemeridade é superada pelo trabalho gerador de riqueza proporcional. A austeridade que vivemos agora é responsabilidade dos portugueses que, ano após ano, votaram em quem nos garantisse mais aumentos salariais, independentemente da nossa produtividade e sempre pagos com recurso a mais endividamento externo e a mais impostos. Os políticos deram-nos o que lhes pedimos! A irresponsabilidade de greves como a que estamos a viver hoje levará a mais e mais recessão e consequentemente a mais austeridade e impostos para todos. Esta é a responsabilidade e os efeitos das greves num quadro como o actual de quase falência do país. É neste contexto que apelo à responsabilidade de todos na defesa dos interesses superiores do Turismo da Região Autónoma da Madeira. Os nossos interesses!

João Welsh, Delegado Regional APAVT