Alterações globais, eventos extremos, mudanças, impactos, são termos que também se aplicam aos processos sociais e económicos dos dias de hoje. Tal como para as questões do clima, de natureza global ou local, também os tempos da economia e os seus reflexos nas sociedades se mostram enormes, erráticos, mas, cada vez mais frequentes e severos. Consequentemente, medidas mitigadoras, minimizadoras e compensatórias são identificadas e postas em prática, tentando salvar o sistema. Há contudo uma ligeira diferença, o sistema, aqui não é a estrutura global que nos sustenta mas, antes pelo contrário, as difusas entidades que, incentivando um modelo desenfreado de crédito barato, deram origem à situação calamitosa, cuja solução única, parece ser a de eliminar pura e simplesmente a memória do compromisso. É nesta onda, qual maremoto, que se varrem, sem ser necessário argumento elaborado, os direitos consagrados por vidas de trabalho, os modelos e estilos de vida que se foram estabelecendo no moldar daquilo que, afinal somos nós, neste limiar do Século XXI. De repente, o tsunami do pragmatismo rompeu com direitos e conquistas de gerações e gerações. Durante décadas, e dialéctica social, mais expressiva ou mais pacífica, foi-se construindo esta sociedade solidária, respeitadora das diferenças entre gerações em que cada uma dava o máximo, esperando que a próxima continuasse esse esforço. A não viabilidade do sistema não estava sequer na necessidade de dar mais. O custo da não eficiência é muito superior ao do cumprimento do que afinal foi a nossa escolha. E agora, pagando comissões exorbitantes a uma troika que nada nos deixará em termos de disponibilidade para encarar o futuro, vamos liquidar o nosso capital social, desmobilizando-o a toda a largura. São os novos que não querem ficar, os velhos que perderam as conquistas que pensavam ter atingido e os outros, os que não podem fugir ao desconto directo compulsivo e antecipado. E perguntam todos: e depois? E depois de pagarmos a dívida da ineficiência, da falta de coragem, da aldrabice, da indulgência e ineficácia, o que se seguirá depois? Convém contudo recordar que qualquer que seja o sistema, há dois factores que determinam as fases seguintes a qualquer momento de impacto. Adaptação e resiliência. Adaptação pode passar pura e simplesmente pela alternativa de nem ligar ao que se passa. É o que acontece com o crescimento da abstenção ou com a prova de que se pode viver "sem governo" como acontece na Bélgica. Resiliência será a capacidade de a sociedade se manter como tal, com identidade e vontade de o ser, quando sujeita a imposições arbitrárias, injustas e sem qualquer visão e capacidade concreta de resolver os problemas das pessoas. Falta pouco para que, por via da adaptação, vejamos as sociedades perderem conscientemente a sua resiliência. Isso não altera as pressões e os eventos que sobre ela acontecem mas, ao menos, nem que seja por insensibilidade, não haverá tanta gente preocupada com o bem comum. Será um novo tempo, a caminho de uma nova sociedade, menos solidária mas também menos paciente e tolerante.
António Domingos Abreu, Biólogo