O futuro da RTP-M devia motivar um amplo, decisivo e lúcido debate na Região. Aliás, o contestado relatório do Grupo de Trabalho para a definição do conceito de serviço público de comunicação social - que tem diversos méritos, merece alguns reparos e suscita interrogações legítimas - abre portas e espaço privilegiado para a discussão fértil, plural e honesta em torno de uma nova “missão” da televisão madeirense, já que a “histórica” está alegadamente cumprida.
O radicalismo das palavras ou os silêncios comprometedores têm tomado conta do assunto. Infelizmente. O pluralismo da informação, num contexto de sã concorrência, exige mais do que ofensas e amuos, do que a habitual partidarização interesseira e do que o oportunismo do poder regional, um governo sem rosto e escudado em ‘fonte’ com o intuito de decretar o fim de um meio que em tempos quis.
Há quem tenha preferido arrasar o relatório sem mais, transformando evidências em insultos e recomendações em dogmas. Alguns, na ânsia de aparecer, perderam-se em contradições. Outros, refugiaram-se em silêncios eloquentes. Que dizem tudo quanto ao medo de perda de mordomias, mas também de direitos adquiridos, de estatuto e de notoriedade. E que denotam a necessidade de maturidade na abordagem a um tema quente e que implica um confronto sério de opiniões.
Importa reposicionar a discussão, recusando as opções mais fáceis, que recorrem habitualmente ao comentário anónimo, aos fundamentalismos inconsequentes, às teses não sustentadas e até às fugas injustificadas. Já há alguns contributos públicos nesse sentido. O Sindicato dos Jornalistas fez saber que RTP-M, tal como a RTP-A, “estão muito longe de esgotar a sua missão de canais regionais que devem reflectir as respectivas realidades, na sua diversidade até geográfica, dando voz e espaço às suas populações e instituições, e contribuindo para enriquecer as emissões nacionais e aprofundar a coesão nacional”. Na edição do DIÁRIO de domingo passado Carlos Alberto Fernandes, Luís Calisto, Roquelino Ornelas e Maria Luísa deixaram contributos reformistas para uma televisão com melhores conteúdos, menos custos e outro modelo de actuação. Também é conhecido o que pensa o Governo Regional, ou pelo menos, parte dele, que subscreve o relatório do grupo presidido por João Duque, excepto na constatação relativa à “tendência do poder político para tornar cativos os canais”! O governo da República já deixou claro que dentro de pouco tempo a RTP-M não será o que é hoje. Não devia ter sido preciso tal ultimato. Não é de agora que a televisão madeirense precisa de libertação e de dar oportunidade à criatividade dos seus.
O desafio que se coloca é aliciante. Fazer mais e melhor com menos implica mudar de vida quanto antes, em capítulos como os conteúdos, a gestão de recursos e a edificação de parcerias. Não faz sentido que seja o centralismo a ditar regras e a autorizar toda e qualquer diligência local. É atentatório à boa programação que em quatro horas de emissão em período nobre se repitam conteúdos informativos, alguns dos quais em permanente desactualização e a ocupar mais de 30% desse espaço. É inadmissível que um operador público, sustentado pelo Estado e pelos contribuintes, concorra deslealmente com a comunicação social privada no terreno desta última, praticando preços pela publicidade emitida inferiores à tabela do mais reles pasquim. É inconcebível que “serviço público” continue a ser entendido como um exclusivo do canal que desperdiça quase tudo o que os privados fazem nessa área. É sintomático que a capacidade de produção da estação se caracterize pela maior ou menor capacidade de sentar pessoas em directo à volta de uma mesa. É preocupante, mas também eloquente, que surjam críticas às fracas audiências e que a RTP teime em esconder os estudos que tem...
É urgente zelar pela televisão da Madeira e nós tudo faremos por isso. Para que não se repita o célebre refrão, popularizado pelos 'Táxi': "Quem vê TV sofre mais...!"