Nos últimos dias muito se tem falado na diminuição dos salários, primeiro na dos funcionários públicos e, mais recentemente, na dos empregados do sector privado. A razão para o corte de salários dos primeiros foi justificada por haver um estudo que mostrava que os funcionários públicos recebem mais do que os do privado, já para os cortes nos salários do sector privado argumentam que não podendo desvalorizar a moeda, é uma forma de baixar os custos de produção e, desse modo, tornar a economia mais competitiva. Sobre a primeira razão apresentada devo dizer que existem estudos na área da Economia que mostram haver um diferencial positivo dos salários dos funcionários em relação aos seus pares do sector privado, mas também evidenciam que este diferencial diminuí com o nível educacional sendo que a nível dos licenciados, talvez, o diferencial seja já de sentido contrário. Estes estudos (alguns elaborados por mim em co-autoria com Pedro Martins), foram realizados nos finais dos anos 90 e desde essa altura os funcionários viram os seus salários muito reduzidos em termos reais. Portanto, a haver o propalado diferencial, será certamente muito pequeno. Daí a necessidade de os dados actualizados serem disponibilizados para que os economistas possam verificar o que se está a passar no momento presente. Aliás, custa-me a entender que não se mostre com clareza os dados e os estudos com base nos quais se emitem opiniões deste teor e se tomam decisões. Infelizmente, vício que se alastra por entre alguns gestores de instituições públicas. Quanto à comparação entre o corte de salários e a desvalorização parece-me que já se esqueceram o que é uma desvalorização, pois, quando esta se verifica os preços dos produtos nacionais mantêm-se, tornando mais caros os produtos importados. Os produtos nacionais tornam-se mais baratos para os estrangeiros aumentando deste modo as exportações. Com a desvalorização os trabalhadores ficam praticamente na mesma, com os cortes salariais ficam realmente mais pobres e, muitos, sem possibilidade de pagarem as despesas fixas que têm todos os meses, como sejam as prestações da casa. Acredito que as medidas que estão a ser tomadas têm mesmo que o ser, mas acho que merecemos que as explicações sejam baseadas em estudos recentes e para bem de todos não nos tratem como ignorantes.
Pedro Telhado Pereira, Professor Catedrático da Universidade da Madeira