Um profundo silêncio instalou-se no presente a ameaça contaminar o futuro. Não é um desses silêncios de calma, a preencher horas de nada dizer pelo simples gesto de um recolhimento confortável. Um intervalo entre palavras e gestos.

O silêncio que nos tem assaltado os dias grita por todos os lados uma inquietação crescente, uma certeza inabalável de tempestade. Parece-se àquele momento antes do trovão, antes do vento forte que nos abana por dentro e por fora, que muda as coisas de lugar instaurando o desconforto do caos.

Se se podem ler as palavras, que aprendemos a juntar e a soletrar, também se aprendem a ler os silêncios. Da mesma forma, pelas mesmas linhas, juntando as ausências, uma a seguir à outra, ponto parágrafo e linha abaixo.

Lá em casa, sempre se conjugaram, nos momentos de crise, os silêncios e as palavras. Eram utilizados à vez e à voz conforme a gravidade da situação. E a distinção era fácil de fazer: muitas palavras gritadas quando a crise era ligeira, quando a palavra certa podia fazer a diferença, instaurar a ordem, reposicionar o mundo no eixo de nós. Mas quando o abalo dispensava as palavras pela sua manifesta inutilidade, o silêncio era usado com toda a propriedade de uma frase certa de gramática, correcta de ortografia e clara de sentido.

E aí, embora ainda pequenos de silêncios e palavras, percebíamos a gravidade do momento, a gravidade que dispensava as palavras. Como discutir com o silêncio? Como contrapor as ideias que se ausentam, a voz que cala, o castigo de uma gramática deserta, sem regras ou erros?

Os silêncios da minha mãe tinham o peso de um dicionário. E ela a capacidade de tornar claro, como a frase mais correcta, esse silêncio de sentido.

É desse desconforto que me recordo nestes dias em que faltam palavras que nos expliquem o futuro. Que nos coloquem perante a verdade.

A minha mãe tinha ganho esse direito de nos castigar com o silêncio. É uma conquista dos afectos, da gestão diária de gestos e palavras, de abraços e afagos, abrindo caminho ao silêncio quando ele se torna imprescindível, mesmo necessário.

Mas não é desta grandeza o silêncio que nos querem impor. Não é desta familiaridade esse direito. Para gerir futuros mais amplos é preciso todo um dicionário, toda a clareza da palavra e da frase. Creio que quem assume o poder ganha também uma espécie de imperativo ético-gramatical que não implica o silêncio prolongado e autista.