Todos os regressos são falsos. Não há sítios onde se regressa, apenas sítios para onde se vai. É um problema de paralaxe invertida. Paralaxe, em Astronomia, é a ilusão de que uma coisa mudou porque a nossa perspectiva dela mudou. Os regressos são a ilusão de que uma coisa não mudou só porque a nossa perspectiva dela também não mudou. Mesmo falso, às vezes o regresso apetece. São 7 anos em Lisboa, e a Madeira chama com a ternura inconfirmada de uma rapariga que se cortejou mas não se chegou a namorar. Há um sítio em Lisboa onde é possível regressar. É o cantinho do Lux. O Lux é uma discoteca sempre na moda, mas que, temendo perder a irreverência, vai evitando o adjectivo "clássico". Mas o que o Lux tem de verdadeiramente extraordinário é ter um cantinho de madeirenses, onde a gente se encontra. O vérticinho fica numa janela avarandada, com vista sobre o rio e a cidade. O cantinho tem um bar, operado freneticamente por um madeirense, o Ricardo. Segundo reza a lenda, é ele o vínculo original entre o canto e a Madeira. Digo do Ricardo o que digo, algo estranhamente, de muitos madeirenses: "não o conheço, mas sei quem é". Não se subestime a bondade da ideia. Não sei quem são estes lisboetas. Não sei quem são os fulanos mais velhos, de olhos substituídos por aranhas vermelhas, adiando a barba como quem adia a idade. As miúdas que teriam classe se o suor não lhes fizesse impressionismo da maquilhagem. As que têm mesmo classe, e só se vislumbram. As bêbadas, desenhando elipses rupestres com os saltos no chão. Os caloiros de província, transpondo a porta como se fosse um escalão de rendimentos. Nem os habituais sei quem são, o que só me faz sentir mais estúpido quando os cumprimento por engano na Loja do Cidadão. Esta distância é impossível com os madeirenses. Não os conheço, mas sei quem são. Não conheço o que saltava do último degrau para o mar no Clube Naval. Não conheço a que tremia de vergonha na festa de 7.º ano do Liceu. Aquele dos Piornais, que jogava bem à bola. A que era gira e descambou. O que arma um bar nos arraiais. A que nunca descambou, e de quem se começa a duvidar se alguma vez o fará. O Ricardo, que impala dramaticamente as senhas das bebidas num prego, como quem se revolta por isto ter um custo. Há ainda os amigos, a gratidão desorientada por não só ter a sorte de saber quem são como o mérito de os conhecer. Ser ilhéu é a partilha, pungente, caridosa, desta familiaridade. É saber, nesta planície à beira-rio, reconhecer as marcas de ter as montanhas como horizonte e o mar como limite. É por isso que estamos no canto. As luzes da margem Sul deitam-se no Tejo como barcos de pesca expectantes, e Santa Apolónia e o Panteão Nacional inclinam-se, indestrutíveis, com a solenidade ameaçadora das rochas. À noite, do cantinho, Lisboa é uma ilha. Daqui, a ilha que sempre cortejámos, mas não chegámos a namorar, parece que nunca vai descambar. Todos os regressos são falsos, mas não deixam de ser genuínos. Sobretudo às 5 da manhã.

Pedro Fontes