FCAL É com algum pesar que assisto à crescente (re)utilização da famosa velha máxima do tão distante Faroeste - à lei da bala. Máxima que, se pensarmos bem e refletirmos cuidadosamente sobre a questão, até tinha o seu quê de justiça. Ganhava o mais rápido e hábil no manuseamento do revólver. Hoje depusemos os revólveres, mas temos outro tipo de armas. Trocámos as obsoletas balas e a pólvora pelas tão mais eficazes e mortíferas cunhas. Sim, hoje em dia, tudo se processa em torno daquilo a que apelido da lei da cunha. Ganha, não o mais hábil e bem preparado, não o mais apto a nível pessoal e profissional, mas sim aquele que tiver a maior, melhor e mais certeira cunha. Atentemos, só a título de exemplo (porque existem outros tantos), à última oferta de escola disponibilizada no site da Secretaria Regional de Educação e Cultura. Pedia-se uma psicóloga licenciada no instituto X, com estágio curricular no mestrado de Psicologia Forense e Exclusão Social da Universidade Y. Duvido que existam muitas pessoas a preencher tão criteriosos e rigorosos requisitos - tudo em prol da excelência! Mas se, (in)felizmente, houver mais do que aquela pessoa para quem foi, especificamente, aberto este concurso, que preencha estas condições, convém não esquecer que aquele sinal de nascença, localizado na perna direita, precisamente 3 cm acima do joelho, é condição sine qua non, para que se esteja habilitado a concorrer a este lugar. Ora, ao ritmo que as coisas se processam, na nossa sociedade, não posso deixar de compreender esta questão da Psicologia Forense e da Exclusão Social. É imperativo fazer uma triagem, desde tenra idade, nos nossos jovens. Muitos deles, à falta da boa cunha, não terão outra opção senão dedicarem-se a uma vida à margem da lei, só para poderem sobreviver. Não vamos correr riscos - há que sinalizá-los desde já! Esta questão faz-me recordar o meu pai. "Estuda" - dizia-me ele há muitos anos. Desgraçado! Como está velho e ultrapassado. Que sugestão ridícula! O melhor conselho que um pai pode dar, atualmente, à sua prole é o de se esforçar para conhecer as pessoas certas. Um pai influente ou um tio com um nome sonante são, indubitavelmente, melhores que uma licenciatura conseguida com mérito ou um mestrado obtido com distinção. Desta forma, não vai ser, de todo, fácil romper com a mesquinhez ideológica e cultural que tão bem nos caracteriza. Privilegiem-se as cunhas, em detrimento daquilo que cada um de nós realmente vale e pode oferecer em prol da sociedade.