Fátima Rocha É sobejamente sabido que praticamente toda a gente é especialista em tudo: futebol, política, Economia, engenharia, Medicina, Direito, Educação, etc. Estas capacidades têm, paradoxalmente, uma amplitude inversamente proporcional à cultura, aos conhecimentos gerais e específicos e à própria autoconsciência dos seus possuidores. Todos eles criticam e opinam sobre todos os assuntos, com mais certezas e propriedade do que aqueles que têm esse assunto como profissão e a dedicação da toda a vida. Este facto é claramente visível nos comentários que são adicionados a notícias nos inúmeros sites sobre o assunto que por aí andam. A prática de se permitirem comentários nos sites é muito interessante, na medida em que não só dá azo a que algumas pessoas tenham oportunidade de dizer alguma coisa (o que em alguns casos, sem esta opção, dificilmente aconteceria) e, por outro lado, dá para fazer uma ideia, por alto, do carácter e da atitude daqueles que fazem os comentários. Embora, para quem os lê, não seja fácil extrapolar de modo a concluir, com precisão, sobre a representatividade que cada carácter/atitude tem na população portuguesa, há um tipo de situação que parece motivar os portugueses com uma força muito especial: casos que envolvam gente com dinheiro. Os portugueses desunham-se para os julgar, perdão… condenar. Os comentários expressam desde a mais "sentida" revolta, ao ódio declarado, passando (como não podia deixar de ser) pelas acusações aos partidos ou organizações a que os acusados possam estar ligados. E, percorrendo os vários sites, é notório que apenas uma ínfima minoria dá a essa gente o benefício da dúvida, antes do julgamento. Embora, em alguns comentários mais sensatos, seja feito um alerta nesse sentido, e noutros, muito mais raros, se tirem mesmo a conclusão de que é apenas o dinheiro o principal motor da indignação dos comentadores. A primeira vez que li esta opinião, achei que fazia muito sentido e desde aí tenho o cuidado de ter esse ponto de vista em conta, quando leio os comentários a notícias. Saliento que ao lê-los, muno-me do melhor sentido de humor que puder, já que, dada a pobreza ortográfica e ideológica que infelizmente grassa, essa é a única estratégia de conseguir ler uma certa quantidade de comentários e continuar bem disposta. Mas depois de estar completamente rendida à teoria de que apenas o dinheiro e o poder movem a sanha de "justiça" da maioria dos comentadores, eis que encontro o exemplo claro dessa triste realidade. No site do Expresso, foi publicada no passado dia 16, a notícia sobre a escolha do júri para o julgamento do psicopata assassino de Torres Vedras, sobre cuja culpa não há a mínima dúvida. Um monstro que, com requintes de malvadez, assassinou quatro jovens e escondeu os seus corpos; e que se suspeita tenha violado mais de 15 rapazinhos. Essa aberração humana para além de causar sofrimento e roubar à vida às suas vítimas, levou a tragédia, o luto e a dor a várias famílias; situação que julgo nunca poder ser ultrapassada, especialmente pelos pais. Três dias depois dessa notícia, foi colocada uma outra notícia sobre a prisão preventiva de Duarte Lima, relacionada com o branqueamento de capitais. Na primeira notícia, não há um único comentário. O que leva a concluir que o assassínio, a dor, o sofrimento e o trauma (desde que sejam na casa alheia) não tocam minimamente os "ilustres" comentadores. Já na segunda notícia, perante a hipótese de haver dinheiro pelo meio e alguém a arrecadar benesses indevidas, chovem os comentários de portugueses sedentos de "justiça" e revoltados contra os abjectos criminosos que … mexem com dinheiro. Ainda se fosse com vidas e sofrimento… Escusado será acrescentar que, como especialistas que são em todas as áreas, para todos eles, culpado ou não, Duarte Lima já está mais do que condenado. O mesmo acontece com Armando Vara. E se, acaso, os julgamentos decidirem pelas suas absolvições, logo os "justiceiros" clamarão que a Justiça está manipulada. Quanto ao "Rei Ghob", não lhes interessa minimamente uma vez que, seguindo uma outra opinião que subscrevo completamente, ele não tem nada que os comentadores possam invejar. Apenas semeou dor e sofrimento e para isso estão-se nas tintas, porque não lhes chegou a casa. Dinheiro é que interessa. E depois, as hienas e os abutres é que são animais oportunistas e irracionais…