Quem anda minimamente atento a estas coisas da Política já percebeu que vivemos num mundo diferente do que vive o resto do País. Portugal está a enfrentar a crise de frente, com medidas de austeridade muito sérias, com decisões bastante difíceis e impopulares, totalmente incorrectas do ponto de vista partidário mas, dizem o PSD e o CDS, que absolutamente necessárias. Aumentos nos impostos, cortes nos salários, reduções em tudo o que são despesas de funcionamento da máquina do Estado e outros gastos aparentemente desnecessários. Mas isso é do outro lado do mar. Nós por cá vivemos noutro mundo. As agruras são as mesmas e ainda serão piores do que no espaço nacional, mas parece que está tudo bem. O desemprego é elevadissímo, as pequenas empresas continuam a sucumbir, o comércio vive momentos negros, as famílias passam por dificuldades que já não sentiam há décadas. E que faz o governo? o governo reflecte. Reflecte e insiste em alguns erros. E, pior do que isso, revela-se profundamente autista, como quem não quer saber do mal dos outros. Sei que decorrem negociações e que é preciso algum recato, mas também sei que há meses que não se decide quase nada nesta terra. Primeiro esperámos pelo Verão, depois pelas eleições, depois pela reflexão de um mês e agora esperamos não se sabe bem por quê, mas esperamos, esperamos e desesperamos. Das prioridades publicamente anunciadas, retenho essencialmente duas: o inventário à coisa pública e aquela ridícula decisão de atribuir nomes de ex-secretários a escolas. O resto tem sido mais do mesmo; distribuição de cargos, arranjinhos para os mais fiéis e uma completa ausência de ideias para a Madeira e os madeirenses. A única excepção a este deserto de projectos foi a decisão previamente anunciada de privatizar a Horários do Funchal. Não se sabe bem como, nem quando, nem com que custos para os utentes e os profissionais. Sabe-se apenas que é para privatizar e que essa opção vai naturalmente ter consequências na vida de milhares de madeirenses que serão agora chamados a pagar os erros de gestão que se acumularam nos últimos anos. E é assim, entalados, como diz Jardim, que estão os madeirenses. Entalados por uma crise internacional que abala a Europa, entalados por um governo nacional apostado em ser o melhor aluno da turma da 'Troika' e entalados por um governo regional que anda aos papéis, que não sabe como tapar o fosso que criou, que não sabe o que fazer a tanta obra inutilizada e muito menos como manter as outras obras, as que foram efectivamente bem feitas. No meio deste pântano, como lhe chamaria António Guterres, fiquei perplexo com as declarações do Representante da República para a Madeira. Ireneu Barreto continua a achar que aterrou na Parvónia e ainda não foi capaz de sair daquele deslumbramento em que ficou quando fez o percurso entre o Aeroporto e o Palácio de São Lourenço. O representante que antes da campanha fugiu a sete pés dos partidos que o procuravam confrontar com atropelos à democracia, é o mesmo que, afinal, acha agora que o dinheiro gasto na Madeira foi bem gasto. E insiste naquele pedido desesperado para que o convidem para qualquer coisa, nem que seja para a Festa da Flor. Chegámos a este ponto tão patético, quase indescritível. Se o senhor representante de Cavaco Silva quiser conhecer a Madeira que vai para além do conforto e da beleza do anfiteatro do Funchal visto da Avenida do Mar, que se faça à estrada. Que dê bom uso aos gastos daquele gabinete e que vá conhecer o dinheiro "bem gasto" na promenade da cota 500, nas dezenas de edifícios públicos quase sempre fechados, na marina do Lugar de Baixo e em tantos outras brincadeiras que andámos a pagar bem caro. Se se sente tão sozinho no Palácio, não se acanhe. Ponha um pé na rua, venho ao fim do dia à zona do Mercado, atravesse a Fernão de Ornelas, passe pela zona da Rua do Carmo. E durante o dia compre um giro na Horários do Funchal e vá conhecer as zonas altas. Tenho a certeza que vai achar menos giro o anfiteatro visto bem de cima. Assim, no calorzinho do Palácio de São Lourenço, Ireneu Barreto nunca vai deixar de ser um emigrante que voltou à terra para gozar uma merecida reforma. Mas mais do que um representante retornado e de um governo acomodado, os madeirenses precisam mesmo é de ideias firmes e projectos sólidos que sejam capazes de sacudir o sistema em que reconhecidamente fomos entalados e não descobrimos ainda como de lá sair.