Numa reflexão sobre o trajecto do desporto na nossa região pode-se verificar, no passado, a maior evidência era a exiguidade de infra-estruturas, e a alteração significativa quanto ao número e qualidade das mesmas no tempo presente. Esta necessidade do ter, de recuperar o tempo perdido, motivado por razões lógicas, empurrou os responsáveis pelo desporto regional para prioridades imprescindíveis e no tempo sustentadas. Por si só, este foi o rumo certo, criando um clima de empenhamento de todos e grande motivação para as novas realidades que as instalações proporcionaram. Era necessário e concretizou-se o fazer, o ter, no entanto este clima empurrou-nos para uma atitude de contemplação pela obra e pelas alterações à realidade desportiva que se foi constatando. A construção das infra-estruturas, a participação activa da população, iludiu algum cuidado absolutamente necessário pelos processos de desenvolvimento desportivo, que a par da explosão demográfica conseguida, precipitou-nos para uma prática por vezes pouco sustentada. Confundimos desejos com objectivos, descuramos os processos, pela glória e orgulho do ter, vincada por alguns bons sucessos desportivos, e assim embalados criamos uma atitude de pouca reflexão sobre os acontecimentos. Não soubemos nos preparar para os já anunciados tempos de crise, e no contexto actual em que os recursos são diminutos, especialmente os financeiros, temos de alterar a gestão, modificar os procedimentos, e procurar novos factores de motivação para esta sociedade que o progresso mudou. Habituados a dispor de tudo ou quase, somos hoje um produto equivalente ao filho de pai rico, que repentinamente, o pai faliu e o filho já mão nem consegue integrar ou adaptar à nova realidade. Uma nova filosofia de pensamento, terá de ser cultivada no sentido de lançar os pressupostos de novos comportamentos. Na realidade, o que se pretende são novas atitudes que correspondam a novos comportamentos, sendo estes o grande desafio pela dificuldade e resistência inerente aos próprios hábitos comportamentais. Construir pontes de acesso aos novos paradigmas, que a actividade física e o desporto neste século encerra, interpretando os sinais de mudança, formulando metas e objectivos para atacar e construir o futuro enfrentando as adversidades. Na verdade, nada que o desporto não contenha na sua essência, onde se insere as novas estratégias face a considerações diferentes. Então preconiza-se um desporto mais humanizado, mais pedagógico e mais social, que promova a cultura do ser. Pretende-se pois, um desporto que derive e seja sustentado por uma prática adequada a cada nível de intervenção, por projectos delimitados conceitualmente, abandonando o simples enunciado de que as instalações são o único factor de evolução, reformulando esta cultura do ter. Um desporto que promova se adeque às referências e necessidades culturais vigentes, procurando os caminhos mesmo que difíceis mas com as melhores possibilidades, que nos levem a bons desempenhos e a uma melhor sustentabilidade e melhor saúde.

Rui Mâncio, Director Técnico da AFM