A perceção da degradação e decadência da política não é de agora. Estudiosos da qualidade na política previram que o fenómeno dos interesses económicos iria gradualmente agrilhoar a política e os seus agentes. Constata-se a despolitização da própria política, da polis como espaço de debate onde a causa pública é dominante. A democracia agoniza. Há descrença e indignação. De um desencanto inicial passou-se à repulsa, a uma aversão a tudo o que envolve política. As redes sociais disseminam esse agastamento. Nelas, tudo se comenta com ironia e desprezo, mas poucos ousam entrar em debates construtivos. Atualmente, ser politicamente ativo é sujeitar-se a estar conotado com a desonestidade e com o oportunismo de quem sobrepõe os interesses económicos e ambições pessoais, ao interesse coletivo. Esse estigma existe mesmo que se esteja na política por convicção, na senda de soluções para o bem comum, mesmo que se paute a ação pelo diálogo e pelo respeito, mesmo que não nos identifiquemos com guerrilhas internas ou externas, nem com a diabolização de quem pensa pela sua própria cabeça, mesmo que de maneira diferente. O que permanece na memória coletiva é a busca incansável pelo "tacho" e pelas mordomias, a cegueira de não se assumir responsabilidades na derrota, a surdez de não saber interpretar a voz do povo, e os atos indignos dos que, triunfantes, se comportam como arruaceiros. Assiste-se a desvios colossais na verticalidade de alguns. Traz-me um desencanto que partilho com tantos outros.

Renata Sousa, Vereadora PS-Porto Santo