Há cerca de três anos, a Madeira comoveu-se com o drama Rodrigo, que, com escassos meses de vida, precisava com urgência de um transplante de medula. Mais do que isso, a Região envolveu-se numa onda de solidariedade e as doações bateram recordes nunca vistos.

Infelizmente, o pequeno ‘valente’ não sobreviveu. Lembro-me de falar com o pai do Rodrigo, a meio deste doloroso processo em Lisboa. O encontro foi no Jardim Zoológico por ser perto do local onde nessa altura viviam. Se para mim, a entrevista - feita com o som da alegria das crianças como fundo - foi difícil e por vezes as palavras teimavam em não sair, para o pai as palavras só podiam ir no caminho da cura. Senti-me tão pequenina perante a força daquele amor que só nos pais sentem e que eu começava então a perceber.

Quando acabei a conversa, não pensei no título do trabalho, nem na sua construção. Só me passava pela cabeça que tinha de ser dadora, que não podia ficar parada mesmo com a possibilidade ínfima de uma compatibilidade. Mas na altura não podia, porque carregava o peso do amor que é um filho, e uma gravidez é impeditivo para ser dadora de medula.

Desde então, tenho os papéis preenchidos, mas fui adiando. Ora por isto, ora por aquilo. Quando se soube da notícia do pequeno Gustavo Martins, em dia de festa da Selecção, qual bolada no estômago, pensei que não podia adiar mais. E não posso, assim como outros leitores não podem. Pelo Gustavo, pelos muitos Gustavos que não conhecemos e precisam e porque um dia pode ser o ‘nosso’ Gustavo a necessitar e sermos nós a fazer o difícil discurso da esperança, que também é um medo inexplicável e inigualável de perder o nosso Mundo.

Eu já marquei.