Otelo Saraiva de Carvalho, um dos principais nomes do 25 de Abril, foi o rosto de uma ameaça que mais cedo ou mais tarde poderá começar a ganhar forma. Um possível golpe de estado caso os responsáveis políticos ultrapassem certos limites que ponham em causa os direitos do povo português. Que limites? Quem os determina? Com que proposta? Alguns comentadores chamaram a atenção de Otelo para o facto de o povo ter eleito democraticamente este governo e é necessário respeitar as escolhas do povo e não impor outras vontades. Se podemos apelidar de demagógica a afirmação de Otelo não é menos demagógico afirmar que o povo escolheu este caminho do actual governo. Ninguém votou em cortes de subsídios, salários e pensões, nem no aumento do desemprego, nem na diminuição brutal das prestações sociais, nem no aumento do IVA, nem no pagamento dos buracos do BPN pelos contribuintes, nem numa recessão anunciada por falta de políticas que promovam o crescimento económico, nem na total ausência de ideias sobre o que se quer para Portugal…provavelmente o povo terá votado na esperança de que este governo faria melhor que os anteriores. Já toda a gente percebeu que austeridade leva a mais austeridade e muito mais importante do que baixar a despesa é aumentar a receita por via do aumento da produtividade. Mas se a classe política nacional e europeia insistir nestas receitas, que apenas visam a salvaguarda da banca, é bem provável que apareçam vários Otelos pela Europa fora. Se os militares se colocarem ao lado do povo, que é o seu lugar, e vierem a tomar o poder pela força, talvez estes "políticozinhos" de meia tigela que pululam em governos torpes de pendor nacionalista, percebam a razão fundamental que esteve na origem da construção europeia, o mais extraordinário e admirável projecto político que alguma vez a humanidade construiu, a manutenção da paz entre os povos europeus. Não é com contas de mercearia, a esmiuçar o deve e haver de cada país que se resolvem os problemas. À desintegração da Europa só existe como alternativa o seu aprofundamento político, com políticas financeiras, económicas, monetárias e fiscais comuns, uma só moeda, uma só divida, num quadro de uma Europa dos cidadãos e cada vez mais democrática. Foi ridículo ver como todos estes "políticozinhos" estremeceram com a possibilidade de os gregos se pronunciarem sobre os que lhes diz respeito em primeiro lugar a eles próprios. E é também escandaloso que os ditos mercados se sobreponham à democracia e os dirigentes políticos se dobrem, incapazes de afirmar a primazia da política sobre a economia. Tudo isto porquê? Porque o dinheiro fala mais alto que os valores subjacentes à construção europeia e que são reflexo de uma cultura que levou séculos de reflexão e sofrimento para se afirmar como referência para os povos europeus e para o mundo. Se trocarmos a solidariedade, a justiça e a equidade pelo dinheiro perdemos os valores mas o dinheiro também. Aí poderá ser moralmente justificada um intervenção militar que recoloque os governos e as sociedade de novo no caminho da democracia que serve o povo e nos livre daqueles que se servem da democracia para enriquecer e empobrecer a maioria dos cidadãos. Os políticos que se cuidem porque os militares é quem têm as armas na mão.
Paulo Santos