Deparo-me constantemente com as reações, os sentimentos, as atitudes e as histórias dos alunos com os quais me cruzo diariamente. Observar uma aula de Educação Física, para além de proporcionar um momento saudável, é algo fantástico! Enquanto professor, avalio a prestação de execução do executante, a sua postura face às tarefas propostas, a sua forma de se movimentar, as suas ações/reações face a uma situação inesperada ou a sua decisão num momento de protagonismo durante um jogo, seja ele de que modalidade for. E não só. Interessante também é observar a relação do aluno com os colegas, a sua atuação em grupo e o espírito de cooperação que se gera entre eles. Logo aí se aprende a conhecer melhor a personalidade do aluno. Nas conversas que surgem naturalmente do convívio com os alunos emergem frequentemente histórias alegres, tristes, comoventes ou hilariantes. E por vezes, também, histórias que nos fazem refletir e olhar para esta geração com outros olhos. São muitas as que eu poderia aqui contar se tivesse espaço para tal: desde o miúdo que acorda às cinco e meia para conseguir chegar à aula das oito da manhã, àquele que tem necessidades educativas especiais mas que nem por isso desiste de alcançar o mesmo sucesso do que os colegas, ou aquele aluno persistente que trabalha ao mesmo tempo do que estuda. Ainda no outro dia contava-me um adolescente, que não participou na aula por estar fortemente engripado, que se encontrava neste estado de debilitação há já cerca de uma semana. Completamente abafado, de olhos muito vermelhos e voz rouca, a gripe que o assolava parecia feroz. Descobri que a ausência de melhoria para o seu estado devia-se às condições em que trabalhava - numa arca frigorífica, cinco dias por semana e num mínimo de oito horas. Espontaneamente questionei: "Porque não consultas um médico?", pois o rapaz aparentava não se encontrar em condições de trabalhar, muito menos ainda no contexto em que as suas funções eram desempenhadas! Foi então que, meio a sorrir, retorquiu: " Eu, se falto ao trabalho, eles põem-me na rua... Não posso!" É o testemunho de um de muitos alunos que por aí andam e que já revelam um espírito de humildade e de sacrifício notáveis. É um testemunho que nos consciencializa de que a escola tem de ser para o aluno, não apenas uma aprendizagem de conteúdos, mas sim uma aprendizagem da vida e para a vida.
Bernardo Vasconcelos, Professor de Ed. Física