Portugal é o único país da Zona Euro que está em recessão técnica, segundo anunciou esta semana o Eurostat, instituição da Comissão Europeia que toma conta dos dados estatísticos. Isso significa que desde há, pelo menos, três trimestres consecutivos o nosso Produto Interno Bruto (PIB) está em queda. Esta é uma má notícia. Mesmo sendo a terceira pior economia do espaço da moeda única, o nosso País é aquele que melhor se posiciona para ajustar-se à realidade, e poder, mais rapidamente que outros, iniciar a recuperação. Esta uma notícia que nos dá uma certa alegria neste vale de lágrimas. Haverá uma greve geral, apoiada pelas duas centrais sindicais nacionais, anunciada para o dia 24 de Novembro. Já era esperada e creio que muitos Portugueses acham que esta greve é necessária para mostrar a força dos trabalhadores. Em reunião de assembleia-geral realizada anteontem num hotel de Lisboa, os pilotos da TAP, tutelados pelo seu sindicato, o SPAC, também anunciaram que decidiram ir para a greve quatro dias em Dezembro e outros quatro em Janeiro. Mas, desde logo esclareceram, que a sua greve não é para mostrar que estão contra a redução dos salários e a subida da carga fiscal. Uma notícia muito inquietante. Os pilotos pretendem apenas exigir “o cumprimento das normas do Acordo de Empresa e a reposição de um clima laboral que reponha a equidade no tratamento entre pilotos e chefias”. Querem também tratar de um negócio que ficou apalavrado no tempo em que António Guterres foi primeiro-ministro, que não foi concluído e que colocará entre 10 a 20% do capital da TAP nas mãos dos pilotos, após a privatização que agora está com data acertada para o próximo ano. Os pilotos contestam as opções estratégicas da actual administração e querem ser ouvidos no processo de privatização. São estas as razões que os pilotos querem fazer valer para justificar a greve que, a nosso ver, e de muita gente, deve ser antes um instrumento a que se recorre, quando esgotadas todas as negociações e por questões laborais. Assim pretendem prejudicar um País, uma companhia que poderá até perder valor, tendo em vista a privatização, e diminuir a receita da TAP nos dias anteriores ou seguintes, já que perante a ameaça, nenhum passageiro está disposto a esperar que os pilotos resolvam voltar ao trabalho, sentado no aeroporto à espera do regresso dos aviões, a dar palmas aos grevistas ou saudando a empresa afectada como a melhor do mundo. Tenho muito respeito pelos pilotos de linha aérea, sei quanto os madeirenses lhes devem e a importância que têm no desenvolvimento e crescimento da Madeira, mas estou contra todos os interesses corporativistas instalados. Em resumo, não vislumbro uma boa razão para justificar a greve dos pilotos. Seria mais condescendente, se em causa estivessem razões estritamente laborais ou de abuso grosseiro dos seus direitos por parte da entidade patronal. É difícil explicar aos Portugueses que uma faixa de profissionais, altamente capacitados, é verdade, e imprescindíveis no actual xadrez logístico mundial, faz greve numa ocasião em que se pedem sacrifícios para recuperar um País falido, que rende muito menos do que os outros, em parte pela falta de produtividade das suas empresas e trabalhadores, das más opções estratégicas de quem governa e pelo comodismo e laxismo de algumas classe profissionais, incluindo os políticos. Este proteccionismo que se verifica na classe dos pilotos, onde hoje já existe desemprego e muitas dezenas de profissionais portugueses a trabalhar em empresas estrangeiras e a ganhar menos do que na TAP, lembra-me o que se passa com os médicos portugueses. Há poucas semanas no Funchal, ouvi o Bastonário da Ordem dos Médicos dizer, na abertura de um congresso nacional, que Portugal não precisa de mais médicos do que aqueles que estão acordados entre a Ordem e as universidades portuguesas. Os meios de comunicação social têm dado larga cobertura a estes assuntos. E todos sabemos que o número de médicos é insuficiente, que há centros de saúde sem médicos no interior do País e que os poucos concursos de provimento que são feitos, alguns ficam desertos. A tal ponto que já estamos a importar médicos, mas aos quais a Ordem lhes coloca as maiores dificuldades na equivalência dos respectivos cursos. Tudo em nome de uma Saúde com profissionais devidamente habilitados e para que haja segurança e para que a área clínica não perca o prestígio e a idoneidade que outros sectores profissionais porventura já não têm. Tudo em nome da Vida, que é o que asseguram os médicos. Tudo estaria bem, se em causa não estivesse uma vez mais esse nefando corporativismo que prolifera sobretudo nos países pequenos, onde os habitantes acreditam que um piloto é um ser sobrenatural, que arrisca a vida em cada voo que faz, e descola sem regresso assegurado, e um médico um profissional de conhecimentos intangíveis, que sempre que nos acode devolve a vida. Nem tanto ao mar, nem tanto à serra. Vamos fazer o possível por nos entendermos, sermos respeitados nas nossas diferenças e merecermos a consideração de todos os Portugueses que, naturalmente, têm muito apreço pelos seus pilotos e pelos seus médicos. Até sabemos que são dos melhores e que nada ficam a dever aos de outros países.