Realizou-se ontem a cerimónia de abertura de mais um ano lectivo da Universidade da Madeira, em circunstâncias muito diferentes das do ano passado, altura em que aqui reunimos todas as Universidades Públicas Portuguesas, para uma celebração conjunta. Circunstâncias diferentes, porque a crise económica, financeira e política não nos ignorou, vindo pôr em causa muito do esforço desenvolvido e que a referida cerimónia reconheceu de forma bem explícita. As últimas semanas têm sido pródigas em notícias sobre as Universidades, nomeadamente por causa das restrições que a proposta de Lei de Orçamento para 2012 lhes impõe. É sempre útil assinalar os principais aspectos de tais restrições: um corte nas dotações do Orçamento de Estado de 23,75% em relação à dotação de 2011; a impossibilidade de utilização dos saldos; e a imposição de severas regras de controlo da nossa gestão, que, para além da monitorização periódica, apontam para a impossibilidade de gerirmos os nossos recursos sem prévias autorizações dos Ministros da Educação e das Finanças. A estas medidas restritivas juntar-se-ão problemas de recolha de receita própria, resultantes da dificuldade que muitos estudantes terão para cumprirem com os pagamentos das suas propinas, um facto que nos preocupa e choca e que tudo faremos para mitigar. É certo que as Universidades devem participar solidariamente no esforço nacional. Mas também é verdade que as Universidades, já há um número significativo de anos, não recebem do Orçamento de Estado nem sequer as verbas necessárias ao pagamento de salários. E ainda assim, foram capazes de gerar saldos que usaram para investimentos em infra-estruturas, laboratórios e apoio à investigação. As Universidades têm vindo a habituar-se a funcionar com limitações, não se podendo ignorar que o fizeram conseguindo aumentar a sua eficiência e reduzir custos. No caso da nossa Universidade, esta disciplina tem sido uma marca dos últimos anos. Um estudo recente da Direcção Geral do Ensino Superior mostra que, apesar da nossa insularidade, temos custos médios por estudante e por diplomado, inferiores à média nacional, um sinal de que a estrutura da Universidade já pouco pode emagrecer. A par deste esforço de contenção e eficiência, a Universidade projectou-se nos panoramas nacional e internacional, muito graças a esforços como o da criação do Madeira Interactive Technologies Institute, em cooperação com o Governo Regional e a Universidade de Carnegie Mellon, que vieram demonstrar a possibilidade de termos iniciativas de nível internacional, inovadoras e susceptíveis de nos tornarem num pólo atractivo para estudantes de todo o mundo. Este esforço, longe de nos cegar, foi acompanhado de um outro, de integração no espaço que nos rodeia, colaborando para o seu desenvolvimento. Nunca é demais chamar a atenção para o trabalho desenvolvido em prol do ambiente e da natureza em iniciativas como o ISOPLEXIS, ou para o trabalho desenvolvido, em conjunto com a LREC e o Instituto Superior Técnico, na sequência da tragédia de 20 de Fevereiro, ou, ainda, para o lançamento de um conjunto de cursos de especialização tecnológica, da Agricultura Biológica às Energias Renováveis. Sendo inquestionável o papel que temos no desenvolvimento da Região, e mesmo a importância para a sua economia, acredito que o nosso futuro passa pela nossa adequação, cada vez maior, às necessidades da Madeira, mas também por sermos motores da sua projecção internacional, colaborando no seu desenvolvimento cultural, científico e económico. Para isso, temos procurado definir uma estratégia que nos permita responder aos problemas mais urgentes, que são de carácter financeiro. Neste sentido, o Conselho Geral da Universidade discutiu, ontem, um primeiro conjunto de medidas tendentes a reduzir despesas e a fixar objectivos financeiros a alcançar em 2012 pelas diversas unidades. Com base nesses objectivos, esperamos que as unidades proponham, até Dezembro, um conjunto de iniciativas nos campos da formação, investigação e prestação de serviços que nos permitam reduzir de forma significativa o défice que prevemos para 2012. Os tempos de grandes dificuldades são também, como todos sabemos, períodos de grandes oportunidades. Acredito que a Universidade da Madeira saberá olhar para esse período precisamente nesta óptica, transformando-se e adaptando-se a uma nova realidade. Na nossa breve história fomos sempre capazes de aproveitar momentos chave para mudarmos, encontrando sempre o nosso caminho próprio. Estou certo de que seremos capazes de o fazer novamente e com sucesso.
Castanheira da Costa