Quando foi disponibilizado o memorando da troika, após a leitura do mesmo, lembro-me de ter chegado à conclusão que a implementação das orientações previstas naquele documento fariam de Portugal, no mínimo, um país com um Estado muito diferente daquele que conhecemos. A variação da forma dos países e dos Estado ao longo da história é um facto, mas o grau de mudança subjacente ao documento da troika para Portugal, pareceu-me, desde logo, brutal, de tal maneira que qualquer comparação com as linhas de força de um processo de mudança em contexto empresarial, faria com que o memorando se assemelhasse a um gigantesco programa de reengenharia, aplicado não a uma organização, mas, a um país. Arrojado e viável, pensei eu na altura, apenas por construção exógena. Para os que estão menos familiarizados com os processos de reengenharia, refira-se que se trata de uma técnica vocacionada para "…o repensar fundamental e a reestruturação radical dos processos empresariais que visam alcançar drásticas melhorias em indicadores críticos e contemporâneos de desempenho, tais como custos, qualidade, atendimento e velocidade" (Michael Hammer, 1990). A reengenharia é uma modalidade de intervenção que busca o redesenho radical dos processos existentes, sendo-lhe atribuída a capacidade de obter melhorias drásticas, mas também custos equivalentes de diversa ordem. Partindo da hipótese que neste momento está em curso a reengenharia de Portugal, com os ganhos e as perdas que as ações decorrentes implicam, valerá a pena questionar até que ponto um país é uma unidade efetivamente elegível para efeitos de aplicação de um mega plano de reengenharia e, sobretudo, se os cidadãos estão cientes da mudança de forma do país e do Estado, que um plano dessa magnitude implica. Só quem optar por ignorar as consequências potenciais das alterações subjacentes, poderá não considerar as inevitáveis ocorrências de cicatrizes, desmembramentos, amputações e extinções. Mas de que necessita(va) o país? De mudança incremental ou de mudança radical? Depende do plano ideológico, a partir do qual se contempla o país, mas certo é que as transformações em curso indicam opções pela transformação acelerada e drástica, com um risco a meu ver absolutamente subvalorizado e que regra geral não se coloca em processos de reengenharia empresarial: a impossibilidade de prever ou garantir, com rigor idêntico ao da implementação, a obtenção de um resultado final proporcional, isto sem referir os custos irreversíveis associados à própria implementação de tal programa. Num plano de reengenharia empresarial obliteram-se funções, desenham-se (novos) processos, despedem-se e contratam-se pessoas, introduz-se tecnologia, criam-se indicadores e, depois, avalia-se a progressão, de modo relativamente previsível ou linear, pois, a esmagadora maioria das variáveis organizacionais internas são controláveis. Mesmo assim, nos casos empresariais, a reengenharia tem um índice de fracassos muito significativo, embora ninguém lhe negue a capacidade impactante nos sistemas em que é aplicada. No caso de um país, em pleno Séc. XXI, mergulhado na turbulência do ambiente geral e a braços com processos sociais e democráticos cada vez mais obscuros, locais e internacionais, o controlo das variáveis internas e centrais é simplesmente inexistente. Poderá submeter-se mesmo um país a um plano de reengenharia? Que limites de atuação sobrarão no futuro para o Estado, reconfigurado no seio da empresarialização do país impulsionada a partir do exterior? Como cidadão gostava de obter dos agentes governativos algumas respostas animadoras para estas questões, mas não é isso que se verifica. Mesmo fazendo tudo bem, não existem garantias de sucesso… Que paradoxo atroz para o povo de um "país intervencionado"! Regressemos à essência da reengenharia empresarial e considere-se a sua absoluta orientação em função dos resultados. De imediato, por associação, vêm-me logo à cabeça as discussões em curso, por exemplo, sobre como aumentar a produtividade nacional; e fico desapontado com a prevalência do foco simplista. A fórmula centrada em "mais horas, mais produtividade… mais produtividade, mais competitividade" pouco diz sobre os moldes em que decorrem as horas trabalhadas, as formas de organização empresarial, os meios tecnológicos utilizados, a formação de quem manda e de quem é mandado, que representam na prática o cerne da questão da produtividade. Constata-se, assim, mais uma vez, como uma racionalidade enformada nos dogmas da empresarialização da sociedade, mesmo que pretensamente bem-intencionada e tendo em vista obter mais eficiência, acaba por ignorar a amplitude e a complexidade dos processos socioeconómicos. Na verdade, a abordagem empreendida em busca da produtividade perdida… pouco mais significa do que a aposta na desvalorização do custo do trabalho, cujas consequências serão dramáticas. Se de facto os principais recursos forem as pessoas e as suas vidas constituírem o cerne da ação governativa, então, restar-me-ão poucas dúvidas que uma estratégia de obliteração, crua e dura, dificilmente permitirá alcançar resultados duradouros ou sustentáveis. Ao contrário dos pressupostos da reengenharia empresarial, as pessoas de um país e as suas vidas não são propriamente obliteráveis. Compreender e agir perante esta evidência, a meu ver, fará toda a diferença no futuro de maior qualidade que temos de construir. E isso não é reengenharia, mas antes parte do exercício adequado de competências absolutamente políticas e de governação do país em prol das pessoas de Portugal.
Ricardo Fabrício