
Mais do que uma injecção de optimismo no povo mais deprimido da Europa, esta vitória expressiva da selecção nacional de futebol que garante o apuramento para o ‘Euro 2012’ acaba por ser o analgésico de que o país tanto precisava para superar a dor da austeridade. A questão do futebol ser ou não o ópio do povo pode ser controversa, mas se 11 ministros não conseguem moralizar ninguém por mais apelos ao patriotismo que façam, ao menos 11 jogadores num campo, coberto por relva ou por alguns tufos de erva, levam milhões a cantar ‘A Portuguesa’ de mão sobre o peito e elevam o nome de Portugal, colocando-o ao lado dos mais competitivos no mundo do ‘desporto rei’.
Agora percebe-se porque motivo, no debate do Orçamento de Estado para 2012, ouvimos o ministro da Economia e do Emprego a apontar a retoma económica para meados do próximo ano. Com a selecção das quinas no leste Europeu a derreter calorias e a pregar ao pequeno ecrã meia nação, Álvaro Santos Pereira sabe que tem o flanco aberto para mostrar como é que “estamos a poupar, a cortar gastos, a reduzir o despesismo e as gorduras do Estado”. Até o simpático tecnocrata ministro das Finanças partilha a táctica de Paulo Bento (quem diria?). Vítor Gaspar afirmou que “vivemos hoje em guerra contra a tirania da dívida”. Com mais inspiração do que tranquilidade, Portugal goleou a Bósnia e Herzegovina por uns expressivos 6-2, vivendo minutos de guerra contra a tirania da arbitragem. E tanto num como noutro, apontamos o dedo à Alemanha: à sr.ª Angela Merkel nos juros da dívida soberana e ao sr. Wolfgang Stark que nos roubou um penalti e não viu o fora-de-jogo que permitiu aos bósnios sonhar com a reviravolta. De facto, “é crucial mobilizar todos os portugueses para o cumprimento das metas”, como afirmou Vítor Gaspar no Parlamento. Ora, a selecção de todos nós iniciou essa epopeia adormecida, cumprindo a meta de resgatar 8 milhões de euros (com 0% de juros) à FIFA directamente para os cofres da Federação Portugesa de Futebol, carimbando o passaporte para o Euro e plantando sorrisos largos às celebridades presentes na tribuna do estádio da Luz, onde estava o ponta-de-lança daquele 11 apagado da equipa de Passos Coelho: o ministro adjunto, Miguel Relvas. A única certeza que temos é que, em Junho do próximo ano, quando Cristiano Ronaldo e companhia voltarem a cantar o hino em jogos oficiais na Polónia/Ucrânia, a plebe deste Portugal sobreendividado não deixará de “desfraldar a invicta bandeira”, mesmo quando terá de “marchar” mais horas de trabalho por menos euros de salário, mesmo amaldiçoando as “injúrias da sorte” da máquina fiscal, virtuosa com os fracos e lisonjeira com os poderosos, mesmo reclamando pelo “esplendor” daquele Portugal cujas injustiças sociais teimam em parasitar a democracia e mesmo perguntando mora a Pátria. Mas, ao primeiro sinal de ameaça, não se silenciarão as armas “contra os canhões” das agências de rating que, de forma malévola, nos atirarem ao lixo. Podemos comer relva, mas não nos vão lixar o sacrifício.