Para o pianista Glenn Gould (1938-1982) só existia uma cadeira: a cadeira que o seu pai fez quando ele começou a tocar piano, ainda criança. Em todos os concertos e gravações que Glenn Gould fez durante a sua vida, aquela cadeira era condição indispensável para a realização do espectáculo. Mesmo depois de muitos anos de uso, depois de ter ficado velha e o coxim ter-se desintegrado, mesmo quando oferecia apenas uma incómoda tábua central como suporte, Glenn Gould continuava a usar a mesma cadeira. "Ah, o homem é excêntrico" diziam uns. "É para honrar a memória do seu pai", especulavam outros. Existe uma réplica da cadeira na Biblioteca Nacional do Canadá. E tem um aspecto mesmo incómodo. Não é possível tocar de forma confortável sentado naquilo. E Gould devia sentir isso cada vez que tocava, o que me fez pensar na importância que por vezes o desconforto pode ter na vida. Quando estamos muito confortáveis, deixamo-nos estagnar, deixamos de procurar desafios (talvez seja consequência da primeira Lei de Newton, que diz que "um corpo em repouso permanece em repouso até que seja aplicada uma força externa" e provavelmente o mesmo princípio se aplica também às nossas vidas, às nossas caminhadas) e vamos progressivamente estancando, adiando o crescimento, arranjando desculpas. Cada vez mais, estou convencido que para o nosso desenvolvimento precisamos de desconforto: é nas crises, nos desafios e nos fracassos que descobrimos a nossa verdadeira força. Afinal, uma refeição sabe muito melhor quando estamos com fome. Por isso, aproveitemos as crises, os desconfortos passageiros, porque são oportunidades de crescimento.

Roberto Macedo Alves - Desenhador de BD