Aos mais jovens e aos mais esquecidos, convém começar por explicar quem são os protagonistas deste artigo: Vasco Lourenço - Tenente-coronel do Exército Português com ar de taberneiro. Capitão de Abril. Totalista de Conselhos em 1974 (Conselho de Estado, Conselho dos Vinte, Conselho da Revolução). Membro destacado da comissão Política do MFA. Atualmente confinado à Associação 25 de Abril, este militar na reserva e auto-proclamado reserva da nação é conhecido por dizer disparates pós-prandiais, possivelmente quando mistura reservas DOC e VQPRD. A mais recente tirada foi defender que os militares devem colocar-se ao lado das populações, caso as manifestações de protesto sejam reprimidas. Como no Egito, disse ele… Otelo Saraiva de Carvalho - Principal mentor do movimento de contestação que redundou na "Revolução dos Cravos". Cultor da palavra "pá". Fez parte do Conselho da Revolução, comandou o COPCON e integrou o Diretório durante o V Governo provisório. Tem um ar de lunático. Fundou um partido de extrema-esquerda chamado FUP (Força de Unidade Popular). Concorreu duas vezes à Presidência da República, depois fundou as FP-25, organização terrorista responsável por 66 atentados à bomba, 99 assaltos á mão armada e 13 homicídios. Foi preso e num dos julgamentos mais estranhos e polémicos da democracia portuguesa, entre prescrições e amnistias, acabou em liberdade, continuando até á atualidade a disparar disparates á cadência duma Kalashnikov. Há dias, antecipando a manifestação dos militares, comentou-a para discordar do protesto, pá, mas não se coibiu de incitar à revolta armada caso sejam ultrapassados os "limites", pá, e esses limites estão prestes a ser ultrapassados, pá, e aí há que derrubar o Governo pela força das armas, pá… Ora bem, voltando às explicações, o que o primeiro senhor diz não deixa de ser uma tontice, até porque compara Portugal ao Egito e esquece-se que vivemos numa democracia, mas o cavalheiro tem a seu favor o facto de ter criticado duramente as declarações do camarada Otelo. Vasco Lourenço achou-as uma grande asneira e uma ofensa aos militares. Outro dinossauro do "Povo Unido" e da "Luta Continua", o major Mário Tomé, também não teve papas na língua: "- Sou amigo do Otelo mas o gajo é parvo…" Dos vários quadrantes políticos, uns optaram por ignorar ou menosprezar estas declarações incendiárias, mas houve quem as tenha levado a sério, ponderando mesmo se não haverá matéria criminal, ao abrigo do artigo 326º do Código Penal, que pune com pena até oito anos o "incitamento à alteração violenta do Estado de Direito". Claro que ninguém acredita que a Justiça Portuguesa, que não conseguiu prender o Otelo alegado terrorista e seus capangas, vá agora redimir-se á custa duma atoarda. Fosse este humilde escriba a escrever algo do género: "povo humilhado, revolta-te! Invade as ruas, parte montras e queima carros, que as tropas vão estar contigo…", era rapidamente preso, julgado, condenado e trancafiado. Mas deixo aqui um alerta aos que tomaram estas declarações de ânimo leve: não, ele não é um bronco; não, ele não está senil; não, ele não é uma saudosa glória do passado, uma espécie de Eusébio de espingarda; não, ele não está sozinho nesta cruzada… Otelo Saraiva de Carvalho tem uma página de Facebook com o seu nome, onde é seguido e louvado por veteranos revolucionários com saudades do gatilho, militares sedentos por derramar o sangue da pátria e jovens de extrema-direita com a bússola ideológica avariada. E também por várias senhoras muito comunistas e exaltadas, uma das quais até escreve que "Otelo, tens tomates até à guelra". Não entendi o alcance, mas não gostei da imagem. Seja como for, estão prontos para pegar nas armas e deixar-se liderar por Otelo, se ele quiser fazer uma nova revolução. Há quem fale em "cortar a cabeça às cobras", mandar todos os traidores para o Campo Pequeno, matar os políticos que estão a destruir Portugal, entre outras pérolas que fariam as delícias de qualquer psiquiatra. Pode ser uma Abrilada do Reumático, mas seria melhor tomar medidas, antes que alguém se magoe…
Raul Ribeiro