'Na História do Mundo', do Mel Brooks, Deus entrega a Moisés as tábuas com os 15 mandamentos. Mas Moisés vivia no meio das rochas, num terreno muito acidentado, por isso não demorou muito a tropeçar e a partir uma das tábuas. Rapidamente, desenrascado, Moisés anuncia ao mundo: "Aqui estão os dez mandamentos!". O elemento que nos faz rir desta situação é muito mais que a ironia. Se a ironia acontece quando o sentido literal é oposto ao sentido textual, o episódio de Moisés provoca-nos pânico: É plausível que Moisés tenha partido uma das três tábuas que Deus lhe deu; mas é-nos humanamente impossível imaginar os cinco mandamentos extra. Os dez mandamentos são de uma síntese soberba, são tão fundadores de nós próprios como sociedade e como indivíduo, que reequacioná-los seria voltar a inventarmo-nos. Toda a piada confronta alguém com duas realidades que são opostas, obriga a encontrar uma solução que não existe. O resultado é um espasmo histérico, físico, cerebral, muitas vezes incontrolável. Uma vez assisti a uma equipa de filmagens a entrevistar uns miúdos, em Cabo Verde. As perguntas de branco desenvolvido, direccionavam os pequenos a dar respostas próprias de quem é vítima: Se é difícil partilhar o quarto com 5 irmãos, se é triste ser pobre, etc, etc... mas os miudos não se deixavam apanhar, gozavam com as perguntas dos Holandeses, desdiziam, levaram o entrevistador a desistir e a ir embora sem sequer se despedir. Os Holandeses estavam ali para materializar o seu imaginário de pobre=triste. Os miúdos defenderam-se com a arma que é mais letal ao pensamento único: o riso. Porque sempre que alguém ri, demonstra que a verdade não é só uma, são muitas.

Filipe Ferraz - Realizador