Nunca, como na última década, os bancos emprestaram tanto ao Estado, às famílias e às empresas e impulsionaram e estimularam o crédito ao consumo. Nunca, como na última década, os bancos ganharam tanto dinheiro e, nunca como agora, precisaram tanto de ajuda. Dá que pensar! É verdade e, simultaneamente, é preciso não perder de vista que sempre foi um sector privilegiado, sujeito a taxas de impostos muito inferiores às aplicadas às outras empresas, e determinante na influência das grandes decisões públicas nacionais e de relacionamento externo. Hoje, o sector bancário é objecto de mais um tratamento especial, por parte da troika, sem igual para qualquer outro sector da actividade empresarial, estando-lhe reservada uma bóia de salvação superior a doze mil milhões de euros. Ainda assim, elegendo o Estado como o culpando da situação em que se encontra, o sector não lida bem com as regras que lhe são impostas para recuperar das consequências do guloso hábito de ganhar numa lógica absolutista que não deixa ninguém indiferente, preferindo perpetuar os impactos que dai decorrem, por falta de liquidez, contribuindo, insensivelmente, para liquidar o que ainda sobra do tecido empresarial português. A inexistência, por esta via, de apoio ao investimento privado e à tesouraria das empresas conduz necessariamente ao equacionar alternativas. Enquanto isto, o Estado fica indiferente mas não deveria. Impõe-se considerar outras vias, pois é do seu inteiro conhecimento, uma vez que esse facto é utilizado como moeda de troca nas negociações que decorrem, que o tecido empresarial está a sofrer, a definhar e a desaparecer, o que levará, necessariamente, à necessidade de outros esforços, principalmente de natureza social. Se a banca não aceita as condições para a utilização dos doze mil milhões de euros reservados pela troika, se o tecido empresarial deles precisa mais do que nunca e não consegue sobreviver nesse impasse, então o Estado que cumpra o seu papel evitando um intermediário que trabalha, cada vez mais, com elevadas e incomportáveis margens comerciais, utilizando os seus próprios (do Estado) meios de apoio ao tecido empresarial, convertendo aquele montante em linhas de apoio ao investimento e à tesouraria das empresas e contratando, directamente, com estas como há muito já se faz, noutras circunstâncias e que têm valido inquestionável impacto e reconhecimento. Assim, ninguém ficará insatisfeito.

Eduardo Jesus, Economista