Michel Montaigne dizia que "a cobardia é a mãe da crueldade". Não podia ser mais acertada esta definição para caracterizar a insólita fuga dos deputados da Madeira do PSD e do CDS na Assembleia da República. Na altura da atípica fuga, discutia-se a proposta de orçamento rectificativo para 2011,do Governo PSD/CDS, os mesmos partidos dos deputados "fugitivos". Esta proposta, consagrava o corte de 50% do subsidio de Natal aos madeirenses e a respectiva entrega das receitas a Lisboa, assim como a sugestão de anular a decisão do governo PS em transferir o equivalente a 5% do IRS da Madeira, para entregar às autarquias da Região.(...) Infelizmente, esta história rocambolesca não é um caso isolado. O deputado na República do CDS já tinha inaugurado esta prática de evitar votar, um dever do deputado estabelecido na constituição, só (?) para não denunciar a sua efectiva relação com as soluções apresentadas. No fundo, escapar às votações parece ser a solução do CDS-M para esconder as suas efectivas intenções. Assim, José Manuel Rodrigues mantém tudo num certo limbo e numa conveniente dúvida. Antes disto, já tinha abandonado as votações aquando da proposta de realizar uma auditoria às contas da RAM; e fez o mesmo na proposta que alterava o subsidio de mobilidade aos madeirenses, no âmbito das viagens entre Funchal e o continente. Fica a ideia que a coragem dos deputados em causa (incluindo Guilherme Silva e companhia) é inversamente proporcional à necessidade dos madeirenses: quanto mais a Madeira precisa de deputados empenhados e determinados, dispostos a combater um governo hostil e prejudicial à Madeira, mais se cheira e se sente o odor da cobardia, mais se observa o registo da hipocrisia. De resto, sobra apenas um povo abandonado à sua própria sorte. O que se tem passado na Assembleia da República, e que acabei de descrever, encerra uma certa forma de fazer política: vale tudo, mesmo violentar as convicções e, sobretudo, ludibriar aqueles que acreditaram nas promessas. Pior que votar a favor de mais sacrifícios é mesmo a decisão de fugir para não votar!

Carlos Pereira, Deputado do PS-Madeira