Já o disse um dia: Alberto João Jardim personifica, de certo modo, a síntese das contradições do seu tempo que é também o nosso. E o que se passou nas últimas eleições legislativas na Madeira são um exemplo eloquente de um homem integrado na realidade palpável que o explica e o determina. Mas também, não o podemos esquecer, na percepção dos seus limites como na intuição da sua irracionalidade. Como quer que seja, nas últimas eleições, Alberto João na expressão de Fernando Pessoa, venceu para ser vencido. Não só porque ocultou uma divida "colossal" na Região mas porque o seu projecto de desenvolvimento se encontra esgotado bem como difícil de cumprir em tempos descontínuos como o nosso, em que a acção é breve e as máscaras da mentira, fronteiriças da verdade, evidenciam uma cultura de irresponsabilidade. Por tudo isto, o que surpreende não é tanto, ou não é somente, a pesada herança que Alberto João deixa às gerações vindouras. É também e muito especialmente, um défice democrático que bloqueia brutalmente uma revolução democrática que está na origem da Autonomia política e administrativa da Região que determinou grande parte do seu desenvolvimento no passado. Na Madeira são precisas instituições democráticas, isto é, lugares de prática e de normas que possam enquadra-las e garanti-las. A democracia na Madeira necessita de espaços, de "dispositivos", de palavra, de lugares onde se possam tomar, discutir, contestar decisões. Devo dizer-vos que também eu que tinha uma fé no carácter omnipotente da política hoje a ache tão ilusória como a actual crença de que ela é impotente ou irrelevante. De facto há hoje outras formas de actuação sobre a sociedade, diferentes da direcção autoritária que torna o exemplo da Madeira ultrapassado e inadequado. Fazer política aqui é regressar aos primórdios do Estado Democrático onde a alquimia da política ainda não existia. Onde os " valores democráticos" têm um valor mais abrangente do que esta concepção que exige simplesmente que uma sociedade moderna tenha uma Assembleia Legislativa e disponha de eleições mais ou menos livres. O ideal democrático exige mais, até a esperança de uma sociedade em que a igualdade, ou melhor, a simetria torne-se o eixo real que distribui o conjunto das relações entre os homens, no seu quotidiano e até na intimidade das suas consciências. Foi isto que Alberto João Jardim nunca entendeu e por isso vivermos num espaço democrático pobre. É preciso dar consistência à democracia e por isso o meu apelo ao candidato Cavaco Silva quando visitou a Madeira nas últimas presidenciais. Apelo paradoxalmente ignorado. Já adivinhava não só o gesto como as consequências. É preciso falar democraticamente, caso contrário, serão outras competências de linguagem, mais arcaicas, que se sobreporão como a submissão, a autoridade fora de propósito, o gosto pelo "consenso autoritário". São estas as principais causas do mau estar actual no seio da comunidade madeirense e do bloqueio como processo que se queria democrático. Foi isto que Alberto João Jardim nunca percebeu e pelos vistos já não terá tempo de perceber. O seu tempo terminou com as últimas eleições que venceu mas que irão determinar, no tempo mais próximo, a sua verdadeira derrota. Porque nunca acreditou que a política fosse uma configuração do futuro e por isso significava que nela se realizasse uma peculiar luta contra o destino, contra o mundo dos factos apresentados como indiscutíveis. Mas a política é acima de tudo o espaço de transformar a fatalidade em responsabilidade. De facto uma das coisas da nossa vida democrática que mais merecem ser protegidas é precisamente a recusa do destino que se traduz na vontade de descobrir, compreender e transformar. O futuro depende mais das nossas decisões e compromissos do que pensaram os que elaboraram a ideia moderna de progresso como uma força irresistível à qual poderíamos entregar-nos confiadamente. E também os cínicos não têm razão quando contemplam o presente actual como algo de inevitável. O futuro não é tanto a coisa que deve adivinhar-se como algo que queremos imaginar e construir, a grande questão não é pois, o que nos espera mas o que vamos fazer, substituir as grandes desculpas mais ou menos lógicas pelos projectos concretos. É por isso, e para isso, que manifesto o erro desta vitória de Alberto João Jardim nas últimas eleições. Perante a magnitude dos problemas que nos esperam e que exigem uma acção colectiva, nunca a política foi tão necessária. Se não podermos resolver esses problemas pelo meio da política não poderemos resolver de maneira nenhuma. O futuro já não é construído lutando contra os que defendem o passado, mas sim contra os que parecem ser pelo futuro mas que o defendem mal. Querem melhor exemplo do que vos acabo de dizer? Olhemos para o novo Governo que esta semana tomou posse e ficamos esclarecidos que das duas uma: ou Alberto João Jardim está absolutamente convicto que a sua era acabou, ou ele próprio se sente prisioneiro do seu destino, do seu partido, dos que o cercam. Perante isto, o que apetece dizer com uma profunda tristeza é que o que necessitamos é de uma política que faça do futuro a sua tarefa fundamental, uma política empenhada em impedir que a acção se transforme em reacção sem significado e que o projecto se degrade no idealismo utópico. Na vida pública tem que se ter um ideal, mas não se pode imaginar que a política se reduz à reafirmação retórica dele. A política não é isso, é a busca do caminho para chegar o mais perto possível desse ideal. Os políticos são homens com capacidade de fazer coisas. Homens com boa capacidade de avaliação. Os membros de um governo terão que ser em relação ao seu chefe um painel de críticos sinceros. Quando olho hoje para Alberto João Jardim vejo no seu rosto e na sua voz uma espécie de mágoa adormecida, que não é desilusão ou desencanto, mas algo de mais profundo do que a banalidade das ilusões desfeitas, o medo de ter perdido a vontade de se iludir. Talvez seja só velhice, que é o começo de quem já não pode recomeçar…
José A. Roque Martins