Contrariamente a uma onda populista que por aí anda, sou daqueles que acham que os políticos, em geral, são mal pagos. Em geral. E toda a gente sabe que quando se generaliza comete-se o duplo pecado de beneficiar uns e prejudicar outros. É mais um daqueles casos onde a virtude está no meio, no bom-senso. De uma forma geral, repito, os políticos devem ser bem pagos. De uma forma mais particularizada, não tenho dificuldade em reconhecer que talvez metade dos nossos deputados, muitos dos nossos vereadores e vários quadros técnicos de nomeação política ganham muito para o pouco que fazem. E sobretudo para o pouco que fazem de todos nós, os que têm mesmo de trabalhar, incluindo, naturalmente, muito funcionário público dedicado, porque não se pode tomar a parte pelo todo. Entre os funcionários públicos, como em todas as outras profissões, há bons e maus. Empenhados e desleixados. Cuidadosos e abusadores. Feita esta declaração preliminar, vamos ao que me faz escrever este artigo: o escândalo do 'jackpot' da Assembleia Legislativa da Madeira. Um escândalo, sim! Com todas as letras. Tal como foi um escândalo a dispensa dada à Função Pública por causa de uma simples tomada de posse do Governo Regional. Mas sobre isso já muito foi dito, voltemos ao dinheiro que todos nós pagamos para o regabofe das máquinas partidárias, de quase todas elas. O escândalo é proporcional ao número de deputados. Porque é daí que se fazem as contas que atribuem aos partidos autênticas lotarias mensais. Por essa ordem de ideias, abusa mais quem mais votos teve. Primeiro o PSD, depois o CDS, depois o PS e depois o PTP. A todos dá jeito aquela abundância de dinheiro que lhes entra nos cofres. É verdade que o PSD passa a receber menos, tal como o PS, e que o PP recebe mais, tal como o PTP. Também é preciso admitir que apenas o PP se ofereceu para ver reduzida em 30 por cento aquela verba. E é justo admitir que, mais uma vez, o PSD vai ter de assumir sozinho o desconforto de ter de confirmar um valor que a todos agrada, mas que apenas o MPT diz que é precisa, como devem pensar os outros partidos de deputado único. Não me custa aceitar que a Democracia, mesmo a mais imperfeita, precisa de dinheiro público. É uma despesa necessária para manter os mínimos da actividade política, sobretudo dos partidos mais pequenos e que, evidentemente, deve ser proporcional ao número de votos. O que me custa é que neste Estado onde se corta tudo, onde se reduzem apoios a tudo, onde a crise justifica sugar quase até à medula do cidadão, que a Assembleia Legislativa da Madeira mantenha, escandalosamente, intocáveis as verbas para o funcionamento dos partidos. Que não dê um sinal de que é preciso cortar não apenas nas gorduras do Estado, mas sobretudo nas banhas do funcionamento das máquinas partidárias. Não é admissível que se cortem salários, que se aumentem impostos, que se diminuam privilégios, que se assista à derrocada da falência das empresas, das famílias e das pessoas e que suas excelências, as máquinas partidárias, continuem folgadamente a esbanjar dinheiro em jantaradas, em visitas desprovidas de interesse, em camisolas e bonés, panfletos vazios e outras brincadeiras. Isso é inaceitável e devia ser passível de castigo. Juridicamente parece tudo certo, mas politica e socialmente é quase criminoso. Chegamos a este ponto: uma família que ganha mil euros por mês vê cortado o seu subsídio de Natal e de férias. Uma Assembleia, ainda por cima com a fama que tem a nossa, que custa por ano mais de 15 milhões, não se corta nada. Zero! Será isto justo? Claro que não! É uma total falta de respeito.