Quero boas notícias. Preciso de boas notícias. Para mim e para toda a gente. Já não aguento com mais desgraça, com mais análises duras e cruas, com mais chuva sobre o molhado. Já foram feitos o diagnóstico e o prognóstico da Nação. Sabemos que estamos na fossa, que não há dinheiro, que ficamos sem subsídios de natal e de férias, que o IMI e o IVA vão subir, que os apoios à Saúde e à Educação vão descer, que as pensões estão em risco, que a banca continua em estado de glória, que o Governo quer abater os funcionários públicos e a classe média e que o Estado faliu. Sabemos tudo isto e muito mais, pois cada um, portas adentro, sabe perfeitamente que já lhe vai faltando o campo de manobra para gerir despesas básicas como a prestação da casa, a eletricidade, a água e o gás. Sabe também que já não há dinheiro para a academia do filho e muito menos para explicações. Sabe ainda, como é o meu caso, que tem de controlar o velocímetro na via rápida para evitar disparar o gasóleo e que a revisão do carro vai ter de esperar. Não há mais nada a saber. Estamos lixados, é um facto. Não vale a pena dourar a pílula. É isto que temos, é com isto que temos de viver. Mas já chega de malhar em mortos. É preciso avançar, mudar a mensagem, sob pena de, a curto prazo, assistirmos a um cenário paradoxal traduzido, por um lado, na desdramatização absoluta da situação - a negação é uma forma de defesa quando a desgraça bate à porta - e, por outro, numa depressão coletiva com efeitos muito mais catastróficos do que os de qualquer derrapagem financeira. Não tenho dúvidas de que, para bem da nossa sanidade mental, é urgente reinventar o discurso. Mudar o disco. Encontrar saídas. Reconstruir a partir do que se tem. Mostrar que ainda há coisas positivas em Portugal. Não há outra solução. Não vale a pena continuar a chorar nem a tirar aproveitamento político da adversidade. É preciso dar a volta e criar alternativas ao descalabro que se instalou em toda a parte. Chega de más notícias! Que cheguem as boas, aquelas que, sem ocultar a verdade, deem sentido à vida neste momento, demonstrando que a vontade é reconstruir Portugal e não sangrá-lo. Não sou seguidora das psicologias da felicidade tão em voga nestes tempos. Já li O Segredo e não me convenceu. As mentalizações à americana também não. Queria acreditar na lei da atração, mas não consigo. Talvez porque tenha alguma queda para o pessimismo, talvez porque tenha a aguda consciência de que sem trabalho não se vai lá. Por isso, não se pense que esta minha reflexão seja produto de uma recente leitura reveladora da essência da vida. Nada disso. É apenas fruto do cansaço de tanta desilusão, do medo de soçobrar e da comoção de saber que ainda há poucos dias alguém que eu conhecia optou pela morte porque já não aguentava a vida, uma vida muito pesada à conta das más notícias. Texto escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

Eker Sommer