Já passava da meia-noite quando me despedi da minha amiga Democracia. Ao portão de minha casa, aguardei delicadamente que ela dobrasse a esquina do Caminho de S. Martinho, junto ao cemitério e seguisse pela via rápida em direcção ao aeroporto. Chegara hoje mesmo à Madeira, vinda do Norte de África e para lá voltará depois de uma breve visita à "sua" Grécia que tanto a tem preocupado ultimamente. Como não tinha onde ficar, lembrou-se da nossa velha amizade, que há mais de 30 anos nascera num mês de Abril. Em boa hora decidiu ir até minha casa. Melhor companheira não podia ter durante a noite das eleições. Noite que foi passando lentamente como num filme de Woody Allen e onde as memórias cruzam o presente e vão desenhando os segredos do nosso futuro. E assim comecei a nossa conversa: "…… oh minha amiga Democracia, por onde andava quando à sua sombra, cumplicidades viscosas cresciam à vista desarmada e protegiam nesta Ilha, a incompetência de uns e a ganância de outros? Porque não avisou o Dr. Jardim, pessoa viva e sagaz, para estar atento aos sinais do tempo, e não se deixar arrastar, de vitória em vitória, até a uma derrota anunciada?" Estranhando esta minha entrada pouco simpática, a minha amiga Democracia, serenamente respondeu-me; "Espere aí ….. não foi bem assim! Por diversas vezes tentei falar com o Dr. Jardim. Nos primeiros tempos, os seus "amigos" mais próximos não me deixavam aproximar dele. Ultimamente …… sinto que já não me consegue entender.! "Mas oh Democracia, o que lhe teria dito se ele a quisesse ouvir?" " Muita coisa! Lembraria por exemplo ao Dr. Jardim, que a Historia é implacável e escolhe sempre a porta mais pequena para aqueles que não querem sair de cena, sempre à espera de mais aplausos. Por essa porta rasa e que a memória logo esquece, pode um dia sair empurrado pelos adversários ou mal tratado pelos seus amigos. Sugeria ao Dr. Jardim, que guardasse de quando em quando o silêncio dos sábios, para poder ouvir a voz de quem passa na rua, do companheiro amigo e frontal, do correligionário político que pensa de maneira diferente, do adversário que o respeita, mas não o teme. Insistia com o Dr. Jardim para acreditar que é na Lealdade que devemos procurar a nossa companheira para toda a vida e não na Fidelidade incondicional. Amante atraente, insinuante e caprichosa, a Fidelidade está sempre à espera que na próxima esquina apareça alguém com mais poder e que aconchegue melhor os interesses mais oportunos. Pediria ao Dr. Jardim, que entendesse que entre a boémia de Coimbra e a postura de um Homem de Estado, há um longo caminho onde se assumem novos compromissos. Sem violentar hipocritamente o seu estilo irreverente e provocador que deve manter, não pode deixar resvalar esse perfil exótico e diferente, para uma agressividade gratuita e grosseira. Lembraria ainda ao Dr. Jardim. que a memória já não é curta. As palavras e as imagens ficam gravadas e amarram-nos a um gesto obsceno, ao desabafo intempestivo, a uma afirmação disparatada ou a uma mentira perigosa. É sempre possível negar, desdizer ou mandar algum lambedor de botas, "explicar" o inexplicável. Mas o preço que se paga é sempre muito alto. Pode comprometer o carácter de quem nega ou mente, só para esconder o erro. Mas meu amigo, ainda bem que não me pediu para lhe explicar como é que um regime desgastado, em evidente fim de ciclo, embora derrotado na sua pujança de outrora, consegue hoje, uma maioria absoluta! Que mistério esconde a mente humana que faz o homem acreditar em palavras coloridas mas não enxerga a dura realidade que já lhe bate à porta! Não sei explicar, mas prometo que vou estudar este estranho caso!!!!! E já agora, diga-me: quem é o D. João II de quem fala nas suas crónicas?" ….. e eu, em voz baixa, lá disse quem era! "Boa ideia! Esta sua amiga subscreve e … contem comigo!"

Manuel de Brito