O mergulho de cabeça na escuridão das areias parece ser um fenómeno que ataca a nossa vida política. A realidade tem de ser enganada, o destino tem de ser ludibriado como se, por artes mágicas, se ocultasse à visão o perigo e este se desvanecesse. O mito da avestruz não tem nenhum paralelo. Mais tarde ou mais cedo somos confrontados com a realidade que tudo fazemos para negar. Nos dias que correm erguem-se altares por todo o lado àqueles que escondem os factos, que nos escondem a realidade. Mesmo quando a realidade nos confronta tentamos nega-la, até ao momento que ela toma conta de nós e já não podemos fugir mais. Foi assim durante a campanha eleitoral. Os altares da ilusão ergueram-se bem alto com a criação do inimigo externo, uma tal de Lisboa, quando de facto o inimigo é interno e é o confronto entre o actor e os seus actos. O inimigo interno foi criado pela irresponsabilidade financeira. A guerra com Lisboa afinal é uma guerra entre homens do mesmo partido, cuja factura será paga por todos nós. A ilusão durou até ao fecho das urnas de voto. Ainda não tinham arrefecido os ardores dos vitoriosos e os calafrios dos derrotados e chegam os parabéns da vitória, através de um directo televisivo a Alberto João Jardim, por parte de um dirigente do PSD nacional, com avisos sérios ao novo Governo e ao PSD-M, e em jeito de ameaça aos Madeirenses. Durante a madrugada, a notícia do plano de resgate, libertada pelo Governo da República, vai preenchendo os serviços noticiosos, quando antes, tinha sido travada pelo PSD e CDS-PP da Madeira, não fosse o eleitor mudar o sentido de voto. Foi necessário manter a ilusão durante a campanha, mas ainda ontem o Primeiro-Ministro veio mais uma vez quebrar todos os altares de ilusões afirmando que «a região está sufocada pelo peso da dívida, o que exigirá a execução de um programa de ajustamento rigoroso, que reflectirá a situação de grande peso da dívida que foi criada ao longo destes anos». Ou seja, sem lirismos isto vai-nos sair do coiro. Gostaria de despreocupadamente afirmar como alguns que «quem fez a dívida que a pague», mas seria subir, como outros, aos altares da ilusão e enganar-me a mim e aos cidadãos.

Victor Freitas - Deputado do PS-M