Quem, como eu, tem mais de 50 anos, lembra-se de como era a escola e os professores de outro tempo. Os docentes, fossem bons ou maus ou até perfeitas anedotas, de um modo geral, tinham educação, sabiam estar e apresentavam-se de forma adequada ao tipo de função que exerciam. Os alunos, por sua vez, com mais ou menos garotices e sucesso, eram educados, sabiam como estar na escola, cumpriam regras, tinham uma noção do certo e do errado, do que se podia e não podia fazer. Os encarregados de educação eram normalmente aliados dos pais, estavam interessados no que se passava e colaboravam como podiam. A 4ª classe era então obrigatória e os alunos das mais diferentes proveniências e estratos sociais adaptavam-se duma forma geral às regras vigentes. Ao secundário chegavam apenas alunos provenientes, no mínimo, duma classe social, que então se chamava de "remediada". A essa situação era normalmente inerente um nível de educação proveniente de casa que se refletia na forma como os alunos se comportavam na escola. Sempre houve bons e maus discentes, mas normalmente havia um mínimo de educação. Com o 25 de Abril, verificou-se a generalização do acesso das pessoas à educação e a pressão provocada sobre um sistema que não estava dimensionado para responder a essa situação foi muito grande, pelo que não havendo professores disponíveis, o sistema recorreu a indivíduos habilitados com o antigo 7.º ano do liceu, sem a formação científica e pedagógica necessárias ao exercício da função docente. Tal facto, aliado ao massificado acesso à escola por outros públicos, com outra cultura e educação, que até então tinham estado arredados dela, fez com que, na generalidade, os níveis de educação, de rigor, de responsabilidade e de exigência desta diminuíssem drasticamente. Gerações sucessivas de governantes foram "contando contos e acrescentando pontos", ou, como diz António Barreto, "Nunca saberemos exatamente onde as coisas começaram e por que vias chegaram até aos nossos dias. Mas são muitos os nomes de pessoas, escolas e experiências que foram elaborando a pesada doutrina que preside hoje à educação". Desde o 25 de Abril até agora, tivemos, salvo erro, 33 ministros da educação com as mais díspares políticas, com as mais diferentes (na análise de A. B.) "… contribuições da revolução marxista, da esquerda jacobina, da anarquia libertadora e do cristianismo pedagógico; da pedagogia activa, da engenharia social igualitária, das ciências da educação e da nova moral civil e puritana", as quais, a juntar à paixão pela Educação do Eng. Guterres, conduziram, passo a passo, à actual situação onde se instalou o laxismo e o facilitismo, onde apenas interessam os resultados para as estatísticas e onde até, como se pode ler no blogue escola-publica-do-camarada-belmiro, "toda a Escola Pública se transformar numa coisa muito alegre, muito lúdica, muito integrada, muito sociabilizante, muito modernaça, muito coisa nenhuma». Chegamos hoje a um emaranhado de dogmas educativos herméticos e intrincados, organizados à volta do aluno entendido como "o bom selvagem" de Jean Jaques Rousseau, denunciado pelo atual detentor da pasta, que o designou por "eduquês". Esta situação tem, por consequência, e voltando à opinião de A.B., que "O mais grave de tudo isto é a aniquilação da escola como instituição responsável, dos pais como parceiros indispensáveis, das comunidades locais como primeiros interessados, dos professores como profissionais dignos e dos alunos como destinatários." Os alunos transportam para a escola os modelos que têm em casa, incluindo alguma falta de educação, quando não mesmo má-criação. Cada ano, com o avolumar do laxismo vigente, é pior que o anterior. Como professor tenho 36 de experiência, sem nunca ter tido problemas de índole disciplinar. Este ano, um aluno interpelou-me no meio de uma aula dizendo "quando é que pára com isso, eu já não tenho pachorra, dá-me sono". Este é um aluno que está no 7.ºano, mas anda pelo menos há 10 anos na escola (com 3 ou 4 repetências), e ainda não aprendeu que não pode usar aquele discurso, porque a escola é um local de trabalho, o que pressupõe esforço e cansaço. Devido à falta de espaço, em próximo artigo de opinião, procurarei abordar a situação vigente nas escolas nas suas vertentes: disciplinar e de aprendizagem bem como a vivência da profissão de professor.

Hélder Melim