Ametáfora social e política do absolutismo reinante na Madeira, a ilha do Ogre, "a ilha amarga como o mar que a cerca", foi desenhada por José Viale Moutinho nos poemas com ilustração de António Péssimo, o que constitui a mais aguda e violenta referência explícita na literatura ao regime do jardinismo. Nesta pequena república de gente gasta com destino acre como certas ervas, "o ogre alimenta-se/devagar, com o álcool e as gorduras". Entre os panos sujos no sangue, um caudal de medos, os rumores das urzes, as nuvens de silêncio, silêncios que se apagam com os dedos, um nojo negro, onde parece que adormeceu a coragem, a agitação das águas do olhar, a mão audaciosa. Combatentes perdidos entre as almofadas rendadas, que se esqueceram da espada, da espada cintilante e da lança, convidam-nos a distrair-nos da dor. Combatentes perdidos convidam-nos a seguir o negro cortejo, a habitual indiferença, a interminável fila da sopa dos pobres. "Acabai com o ogre da ilha!" A ilha é também habitada pela confiança no despertar para a libertação da "mordaça da maldita ordem da ilha do ogre". É lugar de quem aguarda, impaciente, a hora de uma ordem de ataque "para que não seja mais a ilha do ogre". Chegará essa hora da "ilha dos poetas e das damas para além das angústias".
Edgar Silva, Líder do PCP-Madeira