Ao pensar sobre o que escrever, lembrei-me do texto Quem Tem Medo de Virginia Woolf? _ obra-prima da dramaturgia contemporânea (Edward Albee, 1962) _ considerado a quinta-essência do teatro "realista" e celebrizado num filme de Mike Nichols (com Elizabeth Taylor e Richard Burton) que alcançou um feito único na história de Hollywood, ao ser nomeado para todas as categorias dos Óscares. Em Quem Tem Medo de Virginia Woolf? assistimos a um "jogo da verdade" no qual se diz mentiras pensando tratar-se de verdades, num ritual de mortificação mútua onde as personagens vão desmontando múltiplas camadas de mentira e ilusão. No contexto desta opinião, o filme apenas serviu de inspiração para o título. Sobre os Festivais, encontramos uma panóplia de intervenientes com papéis e ganhos distintos: decisores políticos, operadores turísticos, consultores, fornecedores, agentes culturais, universidades, comércio e, não menos importante, o público. Os ganhos são variados, desde a criação de marca que torna o destino mais competitivo, até ao comércio local. Mas quem também ganha (e este vector é sem dúvida determinante) são os intermediários que contratam os artistas. Por isso, sempre defendi que o agenciamento deverá ser feito directamente com aqueles que se apresentam em palco, no sentido de aumentar os ganhos destes e de reduzir a despesa de quem os contrata. A pessoa ou empresa que se proponha fazer contratação de artistas não o fará por caridade ou benevolência, nem tão pouco com obrigação de serviço público. Fá-lo-á com o propósito que norteia a iniciativa privada: o lucro. Cabe a quem promove ou organiza assegurar que os festivais resultem numa mais-valia não só para si mas, em especial, para o público-alvo.
Natércia Xavier, Formadora