Antes da crise começar, o senhor Zé tinha uma tasquinha, frequentada por meia dúzia de "tarraços" com muita sede e pouco dinheiro. Um dia ele lembrou-se de começar a vender bebida a crédito, e criou um sistema de cadernetas personalizadas, uma para cada "tarraço", onde anotava o respectivo consumo diário e o montante a pagar. Pouco tempo depois, tinha o triplo dos clientes, mas quase já não tinha mercadoria para vender. Mostrou as cadernetas ao Senhor do Banco, que com base nos avultados recebimentos futuros aprovou um financiamento, com o qual o Senhor Zé adquiriu uma quantidade brutal de bebidas. Um mês depois, era tão elevada a quantia a receber de clientes, e tão pouco o espaço disponível para tanta clientela, que o Senhor Zé solicitou um empréstimo ainda maior, com hipoteca da tasca, arrendou o espaço contíguo, fez obras, e até mudou o nome do estabelecimento: a "Tasca do Zé" passou a ser o "Joe's Lounge", e as cadernetas passaram a chamar-se cartões de cliente, os "Special Customer's Card". Seis meses depois, surgiu a ideia de "franchisar" o negócio, e os "Joe's Lounge" reproduziram-se que nem coelhinhos excitados, sempre com base no sistema de pagamento postecipado. E depois veio a crise. Quando o Senhor do Banco se apercebeu que não ia receber dinheiro nenhum do Mr. Joe, enviou o processo para Contencioso. A hipoteca foi executada, permitindo recuperar uma ínfima parte do investimento, foi decretada a insolvência da empresa, a Tasca do Zé fechou de vez, e a meia dúzia de "tarraços" foi enfrascar-se noutra freguesia. Impossível? Não, de todo! A crise do "subprime" que deu o pontapé de saída para a situação actual da economia mundial começou mais ou menos da mesma forma: um agente de hipotecas fez uma oferta irrecusável a um pobre desempregado, emprestou-lhe dinheiro para comprar o barracão onde vivia, e juntou esse e muitos outros barracos num aliciante "pacote", que vendeu a um Grande Banco. Este juntou vários "pacotes", que negociou por um preço milionário com um Fundo de Investimentos. Este, por sua vez, dividiu o "pacotão" em "pacotinhos", pensados para nichos específicos de investidores, deu-lhes nomes pomposos e espalhou-os por todo o planeta. Quando alguém se lembrou de verificar quanto é que as hipotecas realmente valiam (quase nada) e que os seus proprietários nunca teriam dinheiro para pagá-las, começou a crise…e ainda aqui vamos. Como lidar com ela? Também eu não tenho a solução mágica, mas tenho a certeza que o humor ajuda. Está provado que o riso liberta serotonina, (um analgésico natural), reforça o sistema imunológico, favorece as conexões cerebrais e estimula a produtividade. Mas não exagere: pode tentar pagar os seus impostos com um sorriso, mas eles vão optar pelo dinheiro. Outra boa ajuda é a actividade sexual, quer em termos de saúde e boa forma, quer na redução do stress e claro, no potenciar da boa disposição, o que nos leva de novo ao riso. Além disso, ainda não está sujeita a imposto, e é gratuita para a maioria dos utilizadores… Para terminar, outra história que corre por aí ilustra que, se tivesse comprado há dez anos, 1.000 dólares em acções de um gigante das telecomunicações, a Nortel Networks, teria hoje 59 dólares. Se tivesse gasto a mesma quantia em cerveja, bebido toda e vendido as latas, teria hoje 80 dólares. Compensa, não? Comparando com as propostas anti-crise dos nossos políticos, digam lá se estas três não fazem mais sentido? Beber, rir e fazer amor - só não convém que seja em simultâneo… Feliz Ano de 2011.

Raul Ribeiro