Desde os anos 80 do século passado, na sequência da nossa adesão à então CEE, entraram em Portugal, milhares de milhões de euros. Seria interessante e esclarecedor fazer um estudo que nos permitisse determinar onde exactamente esse dinheiro foi aplicado e que reprodução adveio para o país desses vultuosos investimentos. Este manancial contudo, não gerou o desenvolvimento expectável, o qual poderia ter sido a solução virtuosa para evitar a actual conjuntura. Apesar de, felizmente, não ter havido por cá nenhum sub-prime, chegamos à situação em que actualmente nos encontramos, completamente na dependência de terceiros. A responsabilidade por este estado de coisas é da inteira e exclusiva responsabilidade da governação dos dois partidos que compõem o bloco central, que foram os únicos que nos governaram em democracia. Do mesmo modo, eleição após eleição, foram eles os responsáveis, numa lógica clientelar, pelo agigantamento actual do Estado, financiado à custa do aumento da dívida externa, colocando-o na situação actual de implodir devido ao seu próprio peso, à deriva, ao sabor dos "mercados". É recorrente nos últimos tempos por parte dos nossos políticos a utilização da expressão "acalmar os mercados", como se tal fosse possível e os mercados fossem efectivamente "acalmáveis", na esperança de com isso, obter os juros mais "baratinhos" para o refinanciamento da nossa divida externa, como quem diz: - vejam lá mercados, nós somos uns sujeitos porreirinhos, bem comportados, fazemos o que vocês querem, tenham lá pena de nós… Os mercados não são pessoas de bem, a sua lógica é a de conseguir o máximo lucro, procedendo da forma para que estão geneticamente programados, ou seja, especulando. Como abutres que pairam, seleccionam as presas mais frágeis e quando consideram que estas não se podem defender, atacam, procurando lucrar o máximo com essa situação. Como podemos constatar pelo nosso próprio exemplo e pelo da Grécia e Irlanda, acalmar os mercados à custa de PEC's é como tentar acalmar um tigre dando-lhe um bife. Este faz justamente aquilo que está na sua natureza: engole-o e rapidamente quer mais. No altar dos "PEC's", sacrificam-se quase tudo e quase todos. A Grécia e a Irlanda, aplicando todas as medidas constantes na "receita canónica" do FMI e afins, não conseguiram acalmar os mercados, pois quanto mais "apertaram", pior fica a economia, menos riqueza geram e menos possibilidades têm os países de sair da crise. Não sou especialista em economia, mas parece-me óbvio que, se a taxa de crescimento económico baixar, aumenta em consequência a dificuldade em gerar a riqueza necessária para pagar os juros da dívida. Supondo que o pagamento dos juros da nossa dívida equivale a 6% do PIB, mesmo que a nossa economia consiga crescer a uma taxa de 2% (sem contar que esse crescimento será engolido pela inflação) em vez de amortizarmos a dívida, continuaremos a endividar-nos a uma taxa de 4% ao ano. Para podermos sair desta situação, precisamos de homens de Estado, que falem a verdade ao país, que tenham a moral e comprovada experiência no mundo real necessárias para nos governar, que não tenham saído de nenhum "aviário político", que tenham a coragem de afrontar os interesses estabelecidos e de perder eleições, que tenham uma profissão para onde possam regressar e não necessitem da política para viver. O que está à vista, decididamente não presta! Como podem ser os mesmos cujas políticas nos colocaram no "buraco" a nos tirar de lá? Se não encontrarmos rapidamente esses homens no seio da democracia, corremos o sério risco da situação económica continuar a degradar-se, sem esperança nem soluções, estando assim criado o "caldo de cultura" necessário a que apareçam "homens providenciais", como Salazar, Hitler ou Mussolini, com um discurso redentor.
Helder Melim