Mário Tavares Na minha primeira ida aos Açores para um encontro espiritual com os "Padres do Prado", anos 80, na apresentação um colega definiu-se como padre de balcão. Achei curiosa a expressão e perguntei-lhe o significado. Respondeu-me: vida de atendimento ao público, funcionário do templo. Esta apresentação reproduz uma caricatura realista da maioria das actividades do clero. E é neste espaço caricaturado que se encontram instaladas muitas das hierarquias eclesiásticas e muito exercício jurídico do Direito Canónico. Vem isto em razão do infeliz desaguisado provocado pelo porta-voz da Diocese, em oposição à desassombrada entrevista de Frei Bento Domingues. (Diário de Notícias de 17 de Julho). Entrevistas destas são raras e preciosas. Derramam uma luz dinamizadora em quem olha o futuro como espaço de esperança activa. Contudo o alarme tocou e o carreirismo em puberdade eclesiástica empertigou-se perante uma coluna de sabedoria madura, com 50 anos de estudo, reflexão, ensino, debate público e universitário, mas sabedoria de sementes que, derramadas, fervilham, crescem e perturbam as mentes alimentadas pelas verdades fechadas, verdades em texto velho, promotor de resignação e descanso. Frei Bento de facto não é um pregador de doutrinação museológica. Segundo ele a Igreja deverá ser um laboratório vivo na solução dos problemas de todos, uma Igreja em favor dos "sem poder" e "sem voz", oposta ao casamento de religião e poder, aberta à dignificação plena da mulher, uma Igreja com ordem e disciplina, mas sem senhorios, uma Igreja que não desiluda nem "seque a esperança", mas, ao contrário, oriente-nos para uma "transcendência que nos ame". Se a Igreja somos nós, todos os baptizados, temos de encontrar nela o nosso espaço. O padre juiz pensou que estava em tribunal, reduziu a Igreja Diocesana ao seu poder hierárquico e declarou que a conferência era "discurso de encomenda". Se Portugal fosse simplesmente o nosso governo, que desgraça! ... Frei Bento teve o cuidado de separar o discurso da Igreja do discurso da hierarquia. Mas o auge do desaguisado está no facto de Frei Bento ter vindo em direcção à Ribeira Seca. Reflectindo um pouco sobre a suspensão do padre José Martins Júnior: Por qual razão não se publica o texto da suspensão "a divinis"? Por que não se torna público: o crime, as razões da suspensão, os cânones violados e tudo o que deu origem a esta suspensão? De facto em 1976 houve a notícia da suspensão "a divinis" e houve muita, muita publicidade para que o escândalo fosse enorme e resultasse. Porém o texto com o crime, a condenação e os fundamentos da mesma nunca surgiu. O padre José Martins nunca aceitou a suspensão "a divinis", sempre recusou-a e opôs-se, num comportamento público bem reconhecido. O povo da Ribeira Seca tem o padre José Martins como o seu pároco, o apóstolo da mensagem que vivem e celebram na sua igreja. Querem-no no seu meio, recusam a suspensão e declaram-na como um ataque à sua dignidade. Perseguidos, resistem e consideram a cúria diocesana injusta, opressora e fechada. Alguns padres diocesanos nunca reconheceram a suspensão, acompanham padre José Martins na sua pastoral, participando nas celebrações. Muitos outros preferem ficar calados, escapando-se às pressões da vigilância e comentários internos. É que a espiritualidade e o pensamento vão pela mão, são conduzidos pelos…chefes. O sacerdote com cargo está apto para orientar o seu povo, mas, para orientar-se a si próprio, vive em menor idade. Por essa razão é melhor colocar-se à margem dos comentários. Vários sacerdotes, de referência nacional pela sua dignidade, nome, cultura e valor pastoral, têm vindo à Ribeira Seca celebrar e dar o seu testemunho reconfortante. Os fieis diocesanos, no seu silêncio observador, interpretam esta suspensão como uma cumplicidade, fruto do casamento da diocese com o poder. Esta suspensão é uma questão pública da diocese, um mau resultado do comportamento religioso/político de D. Francisco Santana e que os bispos subsequentes vão transportando vivo, à espera que se desfaça por si próprio. E, se houver funeral, até vão no enterro e dizem que o falecido, doente, arrependeu-se e pediu perdão. Este "a divinis" da suspensão não significará um deus aprisionado nas mãos de alguns eclesiásticos, obrigado a cobrir actos irreflectidos, mal pensados e até, por vezes, um certo gosto de vingança dos chefes? Não será um bocadinho do paganismo romano, que se instalou na Igreja nos séculos após Constantino? A guerra à Ribeira Seca é uma guerra tão justa como as "guerras-santas" que a História regista. Infelizmente, tumores destes há muitos, derramados nas searas de Deus. (texto escrito em 30/07/2010)