Pedro Melvill da Araújo Confesso que não segui com muito interesse as eleições para a Presidência da República. São coisas da República e as coisas da República não me despertam muita atenção. Até porque, pensamos nós, os por nós ( ? ) eleitos têm o dever de dar bons exemplos quando tratam dos seus direitos e dos seus deveres. Tenho estado mais preocupado com as travessuras da tia Crise e dos primos Mercados que, essas sim, despertam muita atenção. Há direitos e há deveres, e os altos representantes da República, penso eu, devem ser os primeiros a bem exemplificar, para que nós, pobre povo, possamos nos comportar diante da tia Crise e dos primos Mercados, de uma maneira exemplar, como tem sido amplamente solicitado - portem-se bem porque senão vem a tia mais os primos e então vão ver com quantos paus se faz uma canoa - pelos ditos altos representantes da República. Mas, eis que o mais alto representante da República, num acto de escolha entre deveres e direitos, escolheu o direito, quando deveria ter escolhido o dever. Explico - o Sr. Presidente da República, acabado de ser reeleito, optou por receber os cerca de 10000 euritos das suas reformas, em vez do ordenado de cerca de 6500 euros que lhe é devido pelo cargo que ocupa. O que irão pensar, a tia mais os primos, desta escolha? Que estamos certamente num país do salve-se quem puder, pois se quem tinha o dever de dar o exemplo ao povo, escolhe um direito que lhe é financeiramente muito mais vantajoso. Será que todos têm esta hipótese de poder escolher a remuneração mais vantajosa? Escolher entre um direito e um dever? Ou não será que temos todos de "voluntariamente" optar pelo dever de não ter escolha? Já agora, se opta pelas reformazitas, se o ordenado de Presidente não lhe chega, porque é que não vai embora e deixa o lugar e o ordenado a alguém que talvez precise mesmo dele? Há, de facto, coisas que uma pessoa fica assim…