Mário Tavares Nos séculos XVI, XVII e XVIII a Europa correu em direcção ao Novo Continente, na busca do ouro. Nesse longo período a Europa escreveu uma péssima página da sua História, arrasando as civilizações e povos do Continente Americano. Com a escravatura dos africanos, o de má memória comércio dos negreiros, espoliou tudo quanto pôde. Contudo, o sonho de descansar sobre a almofada do ouro não aconteceu. Sabe-se que o povo humilde guarda algumas parcelas de valores em ouro, as quais utiliza como adorno em actos solenes, ou como autodefesa económica em algumas oportunidades. Neste tempo de crise, em que os problemas de carência aglomeram-se e dependuram-se à porta de tantas e tantas famílias, a ambição dos que têm dinheiro e procuram fazer crescer o seu pé-de-meia ganhou dinamismo e, publicamente, veio (acarinhar) os carenciados, envolvendo-os numa intensa atmosfera de anúncios, arrasadores em termos de sensibilização de apoio libertador, de bom preço, legalidade e sigilo, na compra de qualquer ouro que possuam. É um oportunismo comercial fácil e rentável, servindo-se duma regra da selva: caçar armado procurando vítimas debilitadas, exactamente ao inverso do princípio popular: "quem vende vende bem, quem compra olhos tem". Estamos perante um tempo traiçoeiro para os pobres, cercados de carências, desapoiados e violentados com obrigações mais pesadas. Debilitados, se quiserem sobreviver, terão que se mostrar muito hábeis e muito resistentes perante estes enriquecidos que toleram bem a crise. Os pobres enfrentam dois inimigos: o governo, que lhes impõe mais impostos, menos subsídios e dá cobertura a uma organização social geradora de exclusão, e os compradores de ouro, que correm ao seu encontro, para negociar o pouco que lhes resta. Vivemos uma esperança cada vez mais em tempo de inverno e de tempestade.