Numa destas manhãs, em deriva matinal, aconteceu-me um imponderável. Nada de importante, nada de relevante. Quase nada. E, no entanto, este foi um acontecimento que se imprimiu na minha memória, definitivamente. Eu saía da via rápida, quase deserta. A cidade ainda mal acordara. Não era dia de escola, não havia catraios em correria pela rua e pela vida fora. O tempo demorava. Nem rádios dentro dos carros, nem carros dentro dos semáforos, a cidade respirava. Nesse quase intervalo do quotidiano que nos consome (era fim-de-semana), tudo acontecia em câmara lenta. Nenhuma notícia sobre mercados (como se a vida tivesse cotação), nem bandeiras ou debates (como se a vida fosse um combate). Sobre o cinzento da estrada, notei um movimento ténue. A minha atenção deteve-se, então, num pequeno detalhe: um balão, pequeno (cabia em duas mãos), cor-de-rosa, que voava ao acaso do vento, leve e livre. Intuitivamente aconteceu-me, naquele instante, pensar que tinha que evitar tocar-lhe com o carro. Tolice, emendei-me. É um balão. Precisamente. Abrandei. Apeteceu-me que aquele momento demorasse. Naqueles segundos - que duraram minutos - ocorreu-me pensar na história escondida que aquela imagem transportava. Pensei uma mãe a preparar uma festa de anos de uma rapariga que mora por ali (quantos anos fará?). Pensei na alegria da catraia, com borboletas na barriga pela expectativa de receber os amigos lá em casa (já saberá ler?). Quando voltei a mim estava, sem ter reparado, à porta de casa, regressada a mim. E em mim fiquei, longe da agitação no Egipto, distante da Austrália alagada. Não pensei nas contas que nos subtraem os dias, nem no pessimismo que nos trai a vida. Porque me aconteceu aquele imponderável - um detalhe, quase nada - apeteceu-me demorar-me na memória das mãos da minha bisavó a arranjar feijão verde, do meu avô a apanhar morangos, do meu pai a remar rio acima, da minha mãe a tricotar. Enquanto um gato meu brincava ao 'mikado' (espalhado pelo chão) e outro se aninhava num cesto (quase sem caber), lembrei-me da minha irmã ter confessado que, quando era pequena e lhe diziam que não se podia ir para o mar com "bandeira vermelha", não percebia porque é que alguém quereria ir nadar com uma bandeira vermelha na mão... (era outro tempo, mas eu sinto com o mundo este mesmo desconcerto, ainda...). Esta é a alegria e a surpresa que aquele improvável balão à solta na cidade me devolveu. Provavelmente por serem engendrados pelo acaso, certamente porque aceitámos dar-lhes atenção, estes imponderáveis ficam-nos na memória. Não se pedem. Não se compram nem se vendem. Não se trocam. Tocam-nos. Acordam-nos os sentidos. São mais vida.
Diana Pimentel, Professora universitária