Esta semana, a chuva voltou a encher as ribeiras, a lançar o pânico e a fazer novos desalojados. Voltou a demonstrar que, quase um ano depois, se novo 20 de Fevereiro acontecesse as consequências seriam praticamente as mesmas, ou piores.

As serras foram destruídas pelo fogo, a pedra anda solta lá por cima, muitos ribeiros e ribeiras continuam afunilados e outros tantos erros foram entretanto cometidos como um desafio à sorte e ao azar.

Mesmo que se fique cá por baixo, os efeitos estão aí à vista de todos. Basta chover mais um pouco e as ribeiras enchem-se de água, mas sobretudo de areia, pedras e lama.

E é cá por baixo que está, também, um dos exemplos mais flagrantes da nossa arrogância perante a força da natureza. Numa zona nobre da cidade, persistimos, teimosamente, nesta nossa luta inglória e irresponsável de atirar para o mar o material que vem da serra e que percorre as três ribeiras do Funchal. O aterro do nosso descontentamento continua a crescer, como marca profunda do autismo que caracteriza quem gere o destino desta ilha.

O aterro não agrada a ninguém. Os cidadãos não se conformam em ter o lixo à porta de casa, os especialistas alertam para os perigos das marés, para as responsabilidades do aterro na inundação das ruas da cidade, para o possível condicionamento do porto. Até a Câmara do Funchal está insatisfeita com o monstro que tem plantado no quintal.

Infelizmente, a opinião da maioria parece contar pouco para quem tem o poder de decidir. É essa minoria que vê um projecto de sucesso, onde a maioria vê despojos e arrogância, erros e cegueira. Mas é claro que esses são contra o progresso, mesmo quando o progresso já antevê o erro que será descaracterizar aquilo que ainda temos de bom e genuíno.

Será que não aprendemos nada com os erros que andamos a 'plantar' em tantos outros locais. Veja-se o exemplo da Marina do Lugar de Baixo e o descalabro em que se transformou. Veja-se a 'magnífica' obra no Jardim do Mar, que colocou fim às ondas, levou para longe os surfistas e retirou, em nome do progresso, o pouco progresso que aquela terra tinha.

Todas estas obras foram, em tempos, progresso. Hoje, como se sabe, são erros que custam caro. Mas é claro que tudo isto é contra a Madeira e o seu progresso imparável e indiscutível. Afinal, nesta terra, as únicas cabeças pensantes são as eleitas. Aquelas que se escudam no voto do povo para explicar e legitimar os desmandos e a arrogância.

E assim cresce um aterro que ameaça ser o nosso desterro, numa aterradora escalada de disparates e prepotências.