Vamos ter mais uma visita de Cavaco desta vez na pele de candidato, num esforço para fazer esquecer o presidente. Em inícios de campanha, o que interessa é tentar caçar votos com simpatias autonómicas arrancadas a ferros das suas mais profundas convicções centralistas, com declarações pomposas e manifestações de solidariedade reciclada - aliás sempre recitadas friamente e sem qualquer emoção. Mas não é possível passar uma borracha sobre tudo o que o que não fez, não disse e fingiu que não viu. Sempre que aterra, Cavaco jura, mais palavra, menos palavra, o seu apreço e respeito pelas autonomias regionais como casos indiscutíveis de sucesso na nossa democracia; mas ainda não deu a primeira curva à saída do aeroporto e já faz exactamente o contrário. E bastam três exemplos para ilustrar a forma escandalosa como Cavaco pensa as autonomias. 1. As alterações ao Estatuto dos Açores em 2008: um drama, um crime de lesa-pátria, uma afronta. Bem vistas as coisas, e depois de meter o Tribunal Constitucional ao barulho, todo o país percebeu que o que irritou Cavaco foi entender que as suas competências eram beliscados. Não tem a ver com inconstitucionalidades (aliás, depois de tanto alarido, acabou por pedir a verificação de aspectos secundários); tem a ver só com o seu poder e com a remota, e convenha-se inexistente, possibilidade de o ver conspurcado por uma coisa situada lá no meio do Atlântico e que dá pelo nome de órgãos de governo próprios dos Açores. Já é curioso constatar que, neste lado e um pouco mais a sul do mesmo Atlântico, o Estatuto de uma outra região autónoma não está conforme com a Constituição da República, permite escândalos e promiscuidades entre funções privadas e exercício de poderes públicos, facilita uma total inversão de poderes entre Assembleia e Governo - é este que objectivamente manda e controla a Assembleia e não o seu contrário - e de Cavaco nem se ouve um pio. Cavaco parece ter medo de Jardim! 2. A regionalização - quando em 1998, o referendo sobre a regionalização do país obrigou à discussão do tema, Cavaco não hesitou em estar contra usando o argumento do aumento das despesas públicas e apresentou como exemplo negativo, e ilustrativo do que dizia, a Madeira! E não mudou: em Março do ano passado, continuou a defender o Não à regionalização, em entrevista a um jornal espanhol. E agora, em 2011, que a questão se volta a colocar em altura da campanha, não opina!!! Cavaco não deixou de saber, não deixou de ter opinião. Cavaco calou-se porque teme perder votos. A isto chama-se cobardia e calculismo político. Numa altura em que tanto sentimento negativo e tantas sombras se estendem sobre o nosso país, não precisamos de um candidato que se cale e esconda o que pensa. Não precisamos de quem se sirva de sucessivos tabus como estratégia de pensamento e acção. Não precisamos de quem se escude atrás de pretensas contenções inerentes ao cargo de presidente da Republica, porque o que nesta altura o país tem o direito de saber é o que pensa o candidato Cavaco Silva, porque a pergunta é colocada ao candidato. Quanto ao presidente, é para depois. 3. A visita de 2008 à Madeira - Cavaco não encontra razões para dignificar o parlamento regional e decide aceitar a intimidação de Jardim quando, como é seu hábito, insulta os deputados da oposição como 'um bando de loucos'. Cavaco não encontra forças para contrariar Jardim e ter uma postura de Estado, assumindo de cabeça levantada o reconhecimento do parlamento como primeiro órgão de poder regional. Cavaco aceita passar a uma semi-clandestinidade nos seus contactos com os partidos da oposição, em quarto de hotel e a pedido. Cavaco porta-se mal, porque o prof. Cavaco lida muito mal com o sr. Silva. E não se pode dizer que estas coisas sejam pontuais, ocasionais, passageiras. Mal-entendidas ou retiradas do contexto. Não: são convicções afirmadas e reafirmadas e, agora, omitidas ou disfarçadas, por puros interesses eleitorais, contando com a pouca participação cívica, com a pouca exigência cidadã, com a curta memória das gentes. As fricções entre Jardim e Cavaco, ainda que estruturalmente sejam mais que muitas e profundas, conjunturalmente são quanto baste e quando interesse: o que hoje é o fim do mundo, amanhã é o mais conseguido dos casamentos. É por isso que com engulhos e a engolir sapos e elefantes, vamos assistir às palmas. Até à próxima. Quanto à Região - em boa verdade, ainda que se esforcem por dar a entender o contrário, não é assunto prioritário para muita gente. Cá e lá.
Violante Saramago Matos