Ainda no outro dia ao arrumar religiosamente a minha colecção de revistas, folheei algumas páginas de alguns números e dei-me conta que já estamos a falar em crise desde há doze anos a esta parte, na vida nocturna da Madeira esta é infelizmente a palavra de ordem. Nós chegamos a um ponto em que a grande maioria dos artistas convidados à Região, são para os arraiais e são artistas de música ligeira, popular portuguesa, as nossas noites só funcionam a 100% se for em modo de “ladies night”, e está fora questão as casas cobrarem às portas em noites normais porque ainda existem pessoas que não encaram este procedimento da melhor forma. Isto são hábitos que nunca se conseguiram mudar completamente, ainda por muito trabalho que tenha sido feito especialmente nos últimos dez anos. Existe um certo facilitismo, em que as pessoas acedem aos espaços, aos dj’s, à música e às bebidas sem pagar, e isto não acontece em lado algum, à magnitude que acontece aqui. As pessoas pagam cerca de doze euros mais consumo à porta de um clube como o Lux em Lisboa, e isto com os dj’s residentes a tocar. Em Ibiza paga-se no mínimo cerca de cinquenta euros e em Londres numa noite normal pagamos entre quinze a vinte libras o que pode equivaler entre dezoito a vinte e três euros deixados à porta sem direito a bengaleiro ou a qualquer bebida. É certo que vivemos numa época difícil, mas todo este facilitismo não está a trazer frutos à vida nocturna, isto na minha opinião como é claro. Ainda no decorrer do ano passado, numa das poucas festas bem organizadas com dj´s internacionais e regionais, deparei-me estupefacto com um comentário no Facebook, em que uma jovem questionava a organização desse mesmo evento, a que teria direito ao comprar o bilhete de dez euros, ou seja, penso que o que a jovem realmente queria saber era se teria direito a bebidas, como se os dj´s convidados, o sistema de som, a decoração e a qualidade em geral da festa oferecida em troca não fossem suficientes. Em ano difícil as casas nocturnas desdobram-se em conceitos, em eventos especialmente criados para o público, mas a verdade é que vivemos num meio pequeno, e é natural que independentemente dos esforços haja sempre uma certa indiferença em termos de afluência a estes mesmos eventos. A vida nocturna é feita de ciclos, especialmente na Região, eu pessoalmente já vivi alguns desses ciclos, tendo colegas mais velhos que por sua vez viveram outros mais, mas penso que em cada um destes ciclos há um pormenor interessante, o público, as pessoas em geral que frequentaram e continuam a frequentar a noite, sempre toleravam a música nova, as novidades, e sempre foram capazes de dançar a música “fresca”, discos que (ainda) não conheciam, mas cada vez mais as pessoas estão intolerantes para com a música que não conhecem. Estamos a viver uma época em que a nível musical é muito difícil dar a conhecer ao público os novos discos que se vão editando mundo fora, salvo raras excepções, são tempos em que toda a gente é dj e daí deixou de haver a coerência necessária para que este trabalho seja feito da melhor maneira. Não deixa de ser um paradoxo interessante (ou não) agora que através da internet conseguimos toda a informação e música que queremos, em contrapartida as pessoas há uns anos atrás confiavam no gosto dos dj’s para serem eles a lhes mostrar a música nova, agora especialmente com a nova geração são estes que saem de casa com uma playlist pré-definida e esperam que em todos os lugares os djs ponham a tocar aqueles cinco “hits” que gostam independentemente do espaço onde se encontram. Contundo acho que este seria o ano em que pudéssemos dar algumas alternativas aos noctívagos madeirenses e não só, voltando a fazer um apelo às organizações para que se aposte em pelo menos um bom evento, mas um bom evento sem a música revivalista, ou popular. Tenho a noção que a nível financeiro tenha que ser algo muito bem estudado, ao fim ao cabo o que a Região precisa é de um “abanão” como aquele que já proporcionamos anos atrás. Lembro-me quando era dj residente do Club Vespas, tínhamos quase sempre clientes estrangeiros, estivessem eles hospedados nos hotéis ou até mesmo vindos dos navios de cruzeiro, isto era algo de muito comum, agora é muito difícil encontrar turistas a frequentar a noite, levando-me a pensar que deveríamos abrir um pouco mais o leque de opções às pessoas. Acho que por sua vez as políticas de Turismo poderiam se adequar aos tempos em que vivemos, nós precisamos de apostar na renovação dos turistas que visitam a Madeira, penso que soubemos trazer de volta aqueles que nos visitavam há dez, vinte ou trinta anos, mas ficamos a depender muito desses mesmos turistas e acho que não se soube apostar em novas politicas para tornar a Região atractiva a uma nova geração. Nós temos condições únicas para uma oferta variada tanto a residentes como a visitantes a nível de animação nocturna, como complemento a tudo aquilo que a Madeira é conhecida por oferecer, temos espaços incríveis com condições únicas, temos excelentes músicos, excelentes dj’s, temos um anfiteatro que tem que ser o nosso cartão visita, temos também que fazer com que alguns empresários da noite apostem um pouco mais na imagem e na programação variada de qualidade, porque ao contrario a noite será cada vez mais sazonal, vivendo apenas das épocas de férias. Quem não gostava de ver a ilha com mais turistas ? Eu gostava muito, mais turistas significa mais dinheiro, mais emprego, mais oportunidades na Região. Esqueçam o modelo Ibiza, não é isso que me refiro, antes a países como a Servia ou mesmo a Croácia em que oferecem turismo de qualidade ao mesmo tempo têm uma oferta nocturna de igual forma elevada em termos qualitativos, alem dos clubes existem festivais que promovem estes destinos, como o “Exit” na Sérvia, um festival que leva milhares de turistas àquele país todos os anos. Mas será que é isso que os governantes desejam para a Madeira? Nós temos a capacidade de ser muito mais que um destino de elite para vinte ou trinta jogadores de golfe, temos que nos adaptar ao século XXI, e lá fora existe um mercado que poderíamos atrair com alguns anos de trabalho árduo. É necessário pensar em novas formas de promover a Madeira. Para este início de ano sugiro o trabalho de dois projectos portugueses na área da música de dança. O primeiro projecto curiosamente esteve recentemente entre nós, falo de Social Disco Club, o alter ego de Humberto Matias, residente no Porto que ao longo do ultimo ano tem estado activo tanto na criação de música como em actuações pela Europa, em segundo uns senhores que já não são novatos nestas andanças são de Aveiro e são conhecidos como Johnwaynes, dois projectos que têm tido sucesso dentro da música electrónica mais alternativa. Em relação a artistas internacionais, destaco o trabalho de Maya Jane Coles, uma londrina de vinte e dois anos e também Riva Starr que continua, na minha opinião, a ser uma excelente aposta para a Região, visto que é um nome comercializável ao mesmo tempo credível da música House. Coerência precisa-se mais do que nunca.
Michael C, DJ