Quem lida diariamente com as rotinas da escola, sabe que as questões do sucesso educativo extravasam o regozijo do Primeiro-Ministro com os resultados do PISA 2009. Há outras leituras a fazer das atitudes de alunos para quem a escola não tem o mínimo interesse. Há outros indicadores inquietantes nos números crescentes de jovens licenciados desempregados e na desvalorização dos diplomas universitários, no nosso país e não só. Um convite à reflexão. O mote pode ser a mensagem de Ken Robinson, um estudioso da Educação, disponível on-line, ou no seu livro "O Elemento" onde, com uma clarividência notável, explana a necessidade de adequar a escola a um presente em rápida mutação e a um futuro marcado pela incerteza. Os motivos prendem-se com a economia, a globalização, a identidade cultural. Sabe-se que não é mais possível assegurar as garantias de empregabilidade que no passado a certificação escolar concedia. Há que desmistificar a valorização social e cultural subjacente aos conceitos de formação académica, vocacional, profissional, inteligência, capacidade, sob pena de se hipotecar a vida de gerações de crianças e jovens sem hipótese de realização profissional consequente com os seus percursos escolares, com o desemprego e a frustração como destino, comprometendo o seu e o nosso futuro. A proposta é uma revolução na educação, mediante um novo paradigma de políticas e lógicas organizacionais dos sistemas educativos. Já em Março de 2006, na Conferência Mundial do Ensino Artístico, da UNESCO, tinha salientado o papel da criatividade na educação, a importância do ensino das artes e das humanidades, saberes em seu entender injustamente preteridos na hierarquia das disciplinas escolares, devendo-se ensinar a dança e o teatro como a matemática. Sobre a atitude com que o mundo universitário e o senso comum olham para o ensino artístico, ironizou dizendo que nós educamos as nossas crianças, do pescoço para cima, esquecendo o resto do corpo, porque para certa intelectualidade, ele é apenas um artefacto para transportar a cabeça… Habituámo-nos a esta organização linear da escola em saberes e tempos compartimentados pré-definidos e iguais para todos, alunos alinhados por idades - a linha de montagem fabril - pautados por pausas regulares para medir conhecimentos e comparar produtos. O desafio é repensar a cultura de Escola, os seus mitos, o modo de organizar o currículo, a pedagogia, a avaliação. Reforma após reforma, permanece no sistema educativo tudo o que na escola é convenção, ritual, de acordo com lógicas herdadas, numa tirania de senso comum adquirido "established": a escola da conformidade, formatada, "fast-food", de que fala Ken Robinson. Que ao invés de potenciar talentos, muitas vezes castra dons, subalterniza percursos educativos, empobrece e desgasta energias. E que precisa urgentemente de respostas individuais, "customized", de modo a responder à diversidade de inteligências e permitir a cada um descobrir o seu "elemento" ter o seu "momento epifânico". Porque a sociedade do séc. XXI depende dos talentos diversos de todos os indivíduos. Como diz Ken Robinson, nada como a paixão por aprender que estimula o espírito, e permite desocultar os talentos individuais que à semelhança dos recursos naturais, é preciso escavar bem fundo, para trazer à luz e contrariar nesse processo a frustração dos que desistem e abandonam a escola, sem terem descoberto aquilo em que são bons. E justifica citando Lincoln, dizendo que "os dogmas de um passado tranquilo, são inadequados a um presente tempestuoso" e a um futuro incógnito.
Júlia Caré