Vivemos num tempo de globalização, de pluralismo, de multiculturalidade e de Cidadania Universal. Assistimos a um agudizar do "individualismo" acompanhado de fortes tendências materialistas. Apesar de toda a "crise", referida a propósito de tudo, a "ditadura" do ter e do poder continua bem alicerçada em contínuos actos de egoísmo. Nesta autêntica "Era do Vazio", é imprescindível um processo educativo que desenvolva a capacidade de ir mais longe, de ultrapassar a perspectiva superficial e epidérmica das coisas e da vida e abrir os olhos, sobretudo dos jovens, para a profundidade e interioridade das coisas e da vida. Assim, falar em educação é abordar e reflectir sobre os valores (ético-morais) e sobre a sua hierarquização. Nesta linha, as perguntas: para quê educar? e para quê ensinar valores? podem fundir-se numa só, pois têm a ver com as grandes finalidades educativas. Esta educação com e para os valores implica, por isso, a ausência de fundamentalismos (não impor ou inculcar valores) e exige a humildade séria da reflexão, do diálogo, da cooperação e da honestidade. Estas exigências aplicam-se à educação e a todos os intervenientes nesse processo, em quaisquer contextos. É verdade que "a escola do nosso tempo" sabe que tem por tarefa primordial a formação da pessoa na sua totalidade e a plena maturidade das suas potencialidades. Sabe também que a sua proposta educativa, para ser consistente, precisa de se enraizar numa tradição de valores que lhe confira identidade. Sabe ainda que a formação das pessoas, a começar pelas crianças, não se faz no abstracto, mas precisa de promover todos os valores autênticos e perenes da Humanidade e da Civilização, onde naturalmente se integra a própria tradição cristã, portadora de uma mundividência própria que aponta um caminho preciso de realização humana numa constante abertura à Transcendência. Porém, este espaço de exigências acrescidas mantém ainda esquemas de funcionamento centrados essencialmente na instrução, com propostas perdidas num emaranhado de ideologias, (pre)conceitos e (pseudo)valores que apressam a erosão das referências e preocupações relacionadas com a necessidade da educação atender ao desenvolvimento global da pessoa e à multiplicidade de todas as suas dimensões constitutivas. Que fique claro, em educação não está em causa a produção de objectos, em educação existe um sentido mais profundo que guia e orienta todos os esforços: a formação integral da pessoa. Uma educação (uma escola) que quer realizar esta formação terá necessariamente por base a pessoa, fundar-se-á em relações, orientar-se-á pelo futuro da esperança e será alicerçada nos princípios da responsabilização e cooperação. Se assim não for, é inútil para ajudar a perceber a fragilidade da vida, que nasce de um sopro e sentir a sua grandeza que lhe advém da força de querer não parar de viver. É, afinal, Ser Pessoa a tempo inteiro. É disso que precisamos para sair da crise.

Marco Gomes, Director Pedagógico da APEL