Coube-me fazer este artigo entre dois dias complicados. No primeiro, o meu país manda-me reflectir baixinho. No segundo, aconselha-me a falar baixinho para não influenciar o sentido de voto dos que reflectiram baixinho no dia anterior. E, de repente, comecei a pensar nesta estranha democracia que nos impõe, à força, dois dias de silêncio em nome dessa liberdade de poder escolher, em consciência, aqueles que nos representam.
Somos uma democracia jovem, é verdade, mas já maior, ou, pelo menos, com idade suficiente para nos deixarmos destas incongruências democráticas, que podiam até fazer sentido nos tempos idos, mas que agora fazem tanto sentido como tentar respirar debaixo de água, só porque alguém disse que era mais fácil.
Expliquem-me, de uma vez por todas, porque razão nos impõem estes dois dias de reflexão e de silêncio, em nome da democracia e desse direito e dever que é o voto? Não deviam as democracias verdadeiramente evoluídas serem capazes de decidir sem estas palhaçadas de reflexão por decreto, e de dias em que não se pode falar disto ou daquilo, apenas porque vamos ter de escolher e colocar um cruz num candidato ou num partido.
Por mim, dispenso o cuidado que o Estado tem com a minha reflexão. E só lamento que me imponham estes disparates e que continuem a acarinhar esta menoridade democrática. Até porque sempre que uma lei é difícil de explicar ou de entender é porque não está bem feita, não é necessária, ou deixou de fazer sentido.
E se todos já chegámos mais ou menos a esta conclusão, porque razão teimam neste dias de reflexão e de silêncio, que nada combinam com liberdade. Desculpem, mas se o meu país precisa de reflectir baixinho e de falar baixinho sobre o seu sentido de voto, ou sobre o que sente a propósito do nosso destino comum, mesmo que seja apenas por dois dias, então estamos pior do que eu pensava.
E é tudo, porque isto de escrever baixinho cansa...