Os homens devem estar loucos. Tão loucos que nem dão por isso e chegam até a confundir, arrogantemente, a sua insanidade com sapiência. A loucura não é de hoje, mas de uma era, a contemporânea, que virou o mundo do avesso, inaugurando um novo paradigma - o do prazer acima de todas as coisas - que conduziu à substituição de valores básicos como a dignidade e o respeito por si próprio por valores hedonistas associados à permissividade absoluta. Vivemos numa sociedade naif, flexível, em que o esforço deixou de estar na moda e em que tudo o que significa disciplina e sacrifício é desvalorizado em proveito do culto da realização imediata. Não se pense, contudo, que este estado de coisas é mal dos jovens. Não. O mal é nosso, da geração dos anos 80 que, ainda sob o jugo de pais influenciados pela austeridade da velha ditadura, decidiu dar aos filhos aquilo que, supostamente, lhe faltou. E nisso confundimos tudo. Confundimos liberdade com submissão absoluta aos desejos, responsabilidade com facilitismo, diálogo com assentimento incondicional, cumplicidade com desagregação de princípios éticos. Confundimos o nosso papel de pais com o papel de amigos, pactuando silenciosamente com aquilo que sabemos não estar bem, mas que favorece os nossos filhos, ajudando-os a alcançar rápida e eficazmente os seus objectivos. Fizemo-lo - e fazemo-lo - movidos pelos melhores pretextos, por esse amor imensurável e incondicional que sentimos por eles, por essa vontade de superar as castrações da nossa juventude projectando neles, nos nossos filhos, o desejo de concretizar aquilo que nos foi proibido. Agimos de boa fé, mas, verdade seja dita, fizemos barraca. Sem querer, comprometemos o futuro. Criámos uma casta de jovens de ultra-sensibilidade epidérmica, mas profunda apatia em relação ao mundo. Uma casta de jovens que, devido à pluralidade dos seus impulsos e à diversidade de opções ao seu alcance, possui uma força de vontade fraca. E, por isso, muitos vivem em auto-gestão. Em casa, abdicam de qualquer obrigação doméstica, até de fazer a própria cama; na escola, contestam o trabalho metódico e o volume de matéria; na universidade, desesperam porque não conseguem adaptar-se às exigências de um rigor que não se compadece com fragilidades; e no mundo do trabalho, aí exigem começar por cima sem a humildade, a paciência e a perseverança imprescindíveis a qualquer carreira sólida de sucesso. São todos bons rapazes e boas raparigas. É verdade. Nós, pais, também o somos. Agimos, repito, movidos por boas intenções, mas, com diz o ditado, de boas intenções o inferno está cheio. Que o diga Renato Seabra que já está no inferno.

Eker Sommer