O senhor presidente esquece-se que há muitas famílias a viver com rendimentos que não chegam ao da sua ‘Maria’ dependente As presidenciais serviram para mostrar uma vez mais, ao país e ao mundo, que a classe política está completamente alheada do país real. Os candidatos percorreram Portugal de lés-a-lés, subiram aos tejadilhos dos carros para a fotografia, visitaram velhinhos e crianças de bairros, que só aparecem nos noticiários quando são palco de estórias de gangsters e polícia ou em campanha eleitoral. Vieram à Madeira, foram aos Açores. Trouxeram as mulheres para dar colorido à campanha, misturam-se com as gentes. Mas pouco. Na verdade, o povo continua desmotivado e a abstenção está mobilizada na sua inércia para vencer. Quando um Presidente da República, na pele de candidato, aproveita uma queixa de uma idosa, que diz ter trabalhado a vida toda e não ter reforma, para denunciar que a sua própria esposa, “professora em Portugal e Moçambique”, só recebe 800 euros e depende financeiramente do marido, o país tem de corar de vergonha. Porque a tentativa de mostrar que é um cidadão comum, não podia sair mais ao lado e fica mal. É que o senhor presidente esquece-se que há muitas famílias a viver com rendimentos que não chegam ao da sua ‘Maria’ dependente. Que os salário mínimo fica muito aquém desse valor. Também é certo que o Presidente da República não pode prometer reformas a quem não tem, escolas onde fazem falta e lares onde são precisos. Não faz parte das suas competências. Mas isso, o país real também não sabe e quando vê a caravana política de Lisboa passar, queixa-se e lamenta. E o que se espera é que um pretenso e quase re-eleito Presidente se compadeça, mas que não tenha medo de explicar aos cidadãos que só recebem reformas os que para isso fizeram os respectivos descontos ao longo da vida, apresentando outras soluções como o apoio de instituições que trabalhem na área. A verdade não entra, contudo, na hora da caça ao voto. E dá jeito compactuar com esta falta de esclarecimento. Aliás, todos alinham pela mesma bitola. As pessoas já sabem que os políticos são gente como nós. Não precisam de descer dos pedestais em campanha para prová-lo, nem fingir dores que não são deles e que só se manifestam em período pré-eleitoral. O Chefe de Estado deve conhecer o país, ser sensível aos seus males, e ajudar o Governo a governá-lo melhor. E não deve, por isso, pavonear-se qual D. Sebastião iludindo o povo com soluções hipotéticas que não dependem dele. Parece simples, não? P.S. Por cá há outro extremo não menos preocupante. Os políticos da nossa praça, sobretudos os do partido do poder, conhecem bem a ilha real. A dimensão permite essa relação estreita. Mas isso não tem servido para uma maior responsabilidade na governação, antes pelo contrário. Serve para que se construa uma estrada para contentar meia dúzia de famílias. Aqui, vai-se cumprindo o que se promete mesmo que seja estapafúrdio e despesista. É talvez este o maiorsegredo do sucesso de Alberto João Jardim. Com o respectivo preço para quem cá vive.
O senhor presidente esquece-se que há muitas famílias a viver com rendimentos que não chegam ao da sua ‘Maria’ dependente
As presidenciais serviram para mostrar uma vez mais, ao país e ao mundo, que a classe política está completamente alheada do país real. Os candidatos percorreram Portugal de lés-a-lés, subiram aos tejadilhos dos carros para a fotografia, visitaram velhinhos e crianças de bairros, que só aparecem nos noticiários quando são palco de estórias de gangsters e polícia ou em campanha eleitoral. Vieram à Madeira, foram aos Açores. Trouxeram as mulheres para dar colorido à campanha, misturam-se com as gentes. Mas pouco.
Na verdade, o povo continua desmotivado e a abstenção está mobilizada na sua inércia para vencer. Quando um Presidente da República, na pele de candidato, aproveita uma queixa de uma idosa, que diz ter trabalhado a vida toda e não ter reforma, para denunciar que a sua própria esposa, “professora em Portugal e Moçambique”, só recebe 800 euros e depende financeiramente do marido, o país tem de corar de vergonha. Porque a tentativa de mostrar que é um cidadão comum, não podia sair mais ao lado e fica mal. É que o senhor presidente esquece-se que há muitas famílias a viver com rendimentos que não chegam ao da sua ‘Maria’ dependente. Que os salário mínimo fica muito aquém desse valor.
Também é certo que o Presidente da República não pode prometer reformas a quem não tem, escolas onde fazem falta e lares onde são precisos. Não faz parte das suas competências. Mas isso, o país real também não sabe e quando vê a caravana política de Lisboa passar, queixa-se e lamenta. E o que se espera é que um pretenso e quase re-eleito Presidente se compadeça, mas que não tenha medo de explicar aos cidadãos que só recebem reformas os que para isso fizeram os respectivos descontos ao longo da vida, apresentando outras soluções como o apoio de instituições que trabalhem na área. A verdade não entra, contudo, na hora da caça ao voto. E dá jeito compactuar com esta falta de esclarecimento. Aliás, todos alinham pela mesma bitola.
As pessoas já sabem que os políticos são gente como nós. Não precisam de descer dos pedestais em campanha para prová-lo, nem fingir dores que não são deles e que só se manifestam em período pré-eleitoral. O Chefe de Estado deve conhecer o país, ser sensível aos seus males, e ajudar o Governo a governá-lo melhor. E não deve, por isso, pavonear-se qual D. Sebastião iludindo o povo com soluções hipotéticas que não dependem dele. Parece simples, não?
P.S. Por cá há outro extremo não menos preocupante. Os políticos da nossa praça, sobretudos os do partido do poder, conhecem bem a ilha real. A dimensão permite essa relação estreita. Mas isso não tem servido para uma maior responsabilidade na governação, antes pelo contrário. Serve para que se construa uma estrada para contentar meia dúzia de famílias. Aqui, vai-se cumprindo o que se promete mesmo que seja estapafúrdio e despesista. É talvez este o maiorsegredo do sucesso de Alberto João Jardim. Com o respectivo preço para quem cá vive.