Defendo que o negócio do transporte aéreo deve ser regulamentado e regulado com rigor por instituições credíveis que transmitam confiança e segurança aos seus utilizadores. Viajar de avião não pode ter as mesmas facilidades que encontramos quando embarcamos num autocarro ou, até num comboio ou num navio. Mesmo assim, estes meios já criaram mecanismos de regulação que não permitem, pelo menos nos países ocidentais, a anarquia que sabemos existir noutros lados. As particularidades das máquinas e o factor risco envolvem cuidados e atenção acrescidos, nomeadamente aos pormenores de natureza técnica e operacional que caracterizam o transporte aéreo, uma conquista da era moderna e hoje, praticamente, indispensável na vida de todos nós. Tudo isto tem custos, também acrescidos, dos quais temos noção, e que aceitamos, porque nos permitem viajar em segurança e descansados, pois dessa forma as falhas serão mínimas e o conforto estará assegurado. Entendo por isso que garantidas essas premissas só por muito azar é que as coisas correrão mal. Aliás, as estatísticas não mentem e mostram-nos que a nível de segurança quando entramos num avião estamos a optar por um transporte seguro, cómodo e rápido. A companhia nacional de bandeira portuguesa é actualmente, sabemos, um caso de sucesso em todo o mundo. Não tem sido, nos últimos 30 anos, um caso de sucesso comercial e as políticas desenvolvidas não têm sido as melhores, atendendo a erros que comummente se atribuem à falta de uma política nacional de transporte aéreo, prejudicada pela constante intervenção do poder político na gestão da empresa. É certo, também, que essa influência deve sentir-se se considerarmos que a empresa é pública e terá de seguir alguns dos objectivos traçados pelos governos quanto à sua presença no mundo ou nos países para onde voa, na defesa dos interesses nacionais. Uma coisa pouco clara, por vezes, porque mal definida e ao gosto dos interesses dos políticos que tutelam os departamentos governamentais do sector. Na última década, não fora a dívida acumulada, as coisas teriam sido melhores. Mas nota-se um esforço grande que tem conduzido a TAP para um patamar de desenvolvimento e de consolidação interessantes, de notoriedade e de crescimento, em rotas nas quais a companhia tinha pouca presença e que conta hoje com um ‘share’ interessantíssimo, ao nível das melhores, se considerarmos a dimensão que tem no mercado e os resultados obtidos a nível global no sector. Contudo, a TAP continua a pontuar a sua presença em países onde se sente o peso das comunidades de emigrantes portugueses por algum desencanto. No passado foi o abandono da comunidade do Canadá, num processo que nunca ficou esclarecido, depois a saída da zona Leste dos EUA, onde existe também uma grande presença de portugueses, questão que depois foi resolvida com os voos da SATA Internacional. Agora foi na África do Sul. Pelo meio fez-se um voo político para Macau, uma rota muito longa e concorrencial, desastrosa em termos comerciais, que a companhia acabou por abandonar. A solução conseguida para a África do Sul, anunciada esta semana, não deixa os portugueses que lá vivem sem transporte para Portugal, mas a verdade é que se afastou dos aeroportos desse país a presença dos aviões portugueses. Entendemos as razões de ordem economicista que conduziram a essa decisão, mas não as entendemos de todo enquanto companhia nacional. Há poucos dias na Internet li um ‘post’ de um português que vive em França que apresentava uma fotografia de uma placa com a palavra Portugal num fundo estrelado com o emblema da União Europeia e a advertência ‘1 KM’, próximo de um posto de abastecimento da Galp em território espanhol. E escrevia esse tal ‘amigo’ do Facebook: “Só quem vive no estrangeiro sabe o significado profundo desta placa e deste local”… Lembrei-me de há uma década, quando por motivos profissionais me desloquei diversas vezes a Venezuela, a alegria e conforto que sentiam alguns emigrantes portugueses quando entravam dentro de um avião da TAP, muitas vezes pagando mais do que lhes custaria um bilhete, noutra companhia e via outro aeroporto europeu, em direcção a Portugal. Sentiam-se em casa e, muitas vezes, não continham essa emoção. E essas viagens de férias começavam precisamente no próprio ‘check-in’ em que já se fala português e que marcam, de forma indelével, essas visitas de saudade. O Governo Português não tem sabido gerir este aspecto que acho importante no relacionamento com as comunidades portuguesas, em detrimento de critérios que o rigor dos gestores impuseram tendo em vista mais proveitos e o saneamento económico das empresas de transporte aéreo, neste caso da nossa companhia aérea de bandeira. Será que, por isso, a TAP deve voar para países remotos de África, que aos portugueses nada dizem, só porque existe tráfego de outros países europeus via Lisboa? A resposta é complicada e a pergunta só fica, a jeito de remoque, já que esses emigrantes não aceitam, certamente, que sejam trocados, por essas opções. Da mesma forma que amanhã a TAP pode entender que ter 10 voos diários para a Madeira é muito e que as outras companhias que estão no mercado são agora suficientes para o tráfego existente no arquipélago. Só que essas estarão enquanto tiverem passageiros e clientes que optem por um tipo de transporte diferente daquele que nos habituou a TAP e que, aceitamos, surgiu num cenário de grande competitividade e simplificação das regras que outrora foram muito mais rígidas e penalizantes para os madeirenses. Afinal manter a TAP como companhia de bandeira tem um custo muito grande. A opção é privatizá-la já. Mas cuidado, os novos donos podem entender que viajar de Paris para a Mauritânia, Senegal e Gana é que é negócio… Não falei, propositadamente, do Brasil. O sucesso é muito grande e é mérito de quem está à frente da empresa pública. Mas ao governo cabe sanear financeiramente a companhia, apagar a gigantesca dívida acumulada e lhe dar meios para que continue um caminho mais fácil, com o mesmo nível operacional que a todos nós, portugueses, nos enche de orgulho. Com pouca esperança ficamos à espera de novos desenvolvimentos. A mesma pouca esperança que esses emigrantes vêem hoje num cenário que lhes deixa o coração magoado. Em tempo de crise e de poucos dinheiros da ‘mãezinha’ Europa há pouca moral para voltar a pedir a cooperação dos emigrantes para levantar o País enfraquecido e abalado por decisões que nem sempre têm contribuído para o reforço da unidade dos muitos milhares de portugueses que vivem fora do solo pátrio.