O Alexandre tem quatro anos. Começa a saber ler. A música já mora nele Gosto de surpresas. Gosto de pequenas histórias. Gosto de cada primeiro olhar. Gosto de cada gesto inicial. Gosto do modo como o futuro nos surpreende, sem promessas nem compromissos. Gosto da forma como o tempo nos troca as voltas à memória e nos reescreve o presente. Gosto de não saber. Gosto de aprender. Esta história apareceu assim, de mansinho, num canto do dia em que suspeitamos saber o que vamos encontrar. Surpresa. O Alexandre não sabe mas foi ele que escreveu esta crónica. A noite celebrava a nova casa da Orquestra Clássica da Madeira e para o concerto veio Pedro Jóia, magnífico intérprete (guitarra) e compositor. No programa estava a promessa de Beethoven, Carlos Paredes, Paco de Lucia e a estreia mundial de uma composição do músico convidado, "Evocação do Fado Menor". Fora do programa aconteceu-me conhecer o Alexandre. Alexandre esteve sossegado, confortável, durante todo o concerto. Como se em casa. No intervalo, quase sem querer, dei por mim a conversar com ele. Contou-me que há já dois anos que vinha aos concertos da orquestra, que ouvia música clássica em casa, que tinha um ou outro maestro de que mais gostava. Não comentámos a acústica da sala nem a localização da nova casa da orquestra, agora afastada do coração da cidade, onde todos nos sentimos mais anónimos. Em vez disso falou-me dos instrumentos que guarda no quarto, um violino, uma viola. Eu não lhe disse (mas talvez qualquer dia lho confesse) que cresci numa casa onde mora um piano, que aprendi (mas quase não me lembro) a tocá-lo, que gosto de Eric Satie, de Keith Jarrett e das fugas de Bach nas mãos de Maria João Pires. Também não lhe contei que "Verdes anos", uma peça de Carlos Paredes que ouvimos nessa noite, lado a lado, é uma das composições que mais fundo me toca; nem lhe disse que integrou o filme de Pedro Rocha com esse título (de 1963), filmado a preto e branco numa Lisboa dos anos 60, triste e sombria. Ambos - não o dissemos mas sei-o - nos assombrámos a ouvir "Verdes anos" pelos dedos de Pedro Jóia, que a tocaram de uma alegria sublime, tão rara. "Verdes anos" é, para mim, agora, não só a história de Júlio e Ilda (ele aprendiz de sapateiro, ela criada de servir), amantes trágicos num país a despedir-se do salazarismo; nem apenas os magníficos planos de Paulo Rocha (a fundar o cinema novo português) ou a sublime banda sonora de Carlos Paredes. O Alexandre esteve em silêncio todo o concerto. Sem esforço. Em casa. Ao colo do pai, aninhado, deixou-se tocar pelo prazer que não se explica. Pela mais secreta e íntima das linguagens, a música. O Alexandre tem quatro anos. À saída da sala, trauteou o alfabeto desenhado nas filas das cadeiras. Começa a saber ler. A música já mora nele. Nos seus "verdes anos", Alexandre ensinou-me a alegria e a leveza de cada descoberta. Do que é novo e do que se renova. Sem promessas nem compromissos. "Verdes Anos". Diana Pimentel, Docente universitária
O Alexandre tem quatro anos. Começa a saber ler. A música já mora nele
Gosto de surpresas. Gosto de pequenas histórias. Gosto de cada primeiro olhar. Gosto de cada gesto inicial. Gosto do modo como o futuro nos surpreende, sem promessas nem compromissos. Gosto da forma como o tempo nos troca as voltas à memória e nos reescreve o presente. Gosto de não saber. Gosto de aprender.
Esta história apareceu assim, de mansinho, num canto do dia em que suspeitamos saber o que vamos encontrar. Surpresa. O Alexandre não sabe mas foi ele que escreveu esta crónica.
A noite celebrava a nova casa da Orquestra Clássica da Madeira e para o concerto veio Pedro Jóia, magnífico intérprete (guitarra) e compositor. No programa estava a promessa de Beethoven, Carlos Paredes, Paco de Lucia e a estreia mundial de uma composição do músico convidado, "Evocação do Fado Menor". Fora do programa aconteceu-me conhecer o Alexandre.
Alexandre esteve sossegado, confortável, durante todo o concerto. Como se em casa. No intervalo, quase sem querer, dei por mim a conversar com ele. Contou-me que há já dois anos que vinha aos concertos da orquestra, que ouvia música clássica em casa, que tinha um ou outro maestro de que mais gostava. Não comentámos a acústica da sala nem a localização da nova casa da orquestra, agora afastada do coração da cidade, onde todos nos sentimos mais anónimos. Em vez disso falou-me dos instrumentos que guarda no quarto, um violino, uma viola. Eu não lhe disse (mas talvez qualquer dia lho confesse) que cresci numa casa onde mora um piano, que aprendi (mas quase não me lembro) a tocá-lo, que gosto de Eric Satie, de Keith Jarrett e das fugas de Bach nas mãos de Maria João Pires. Também não lhe contei que "Verdes anos", uma peça de Carlos Paredes que ouvimos nessa noite, lado a lado, é uma das composições que mais fundo me toca; nem lhe disse que integrou o filme de Pedro Rocha com esse título (de 1963), filmado a preto e branco numa Lisboa dos anos 60, triste e sombria. Ambos - não o dissemos mas sei-o - nos assombrámos a ouvir "Verdes anos" pelos dedos de Pedro Jóia, que a tocaram de uma alegria sublime, tão rara.
"Verdes anos" é, para mim, agora, não só a história de Júlio e Ilda (ele aprendiz de sapateiro, ela criada de servir), amantes trágicos num país a despedir-se do salazarismo; nem apenas os magníficos planos de Paulo Rocha (a fundar o cinema novo português) ou a sublime banda sonora de Carlos Paredes.
O Alexandre esteve em silêncio todo o concerto. Sem esforço. Em casa. Ao colo do pai, aninhado, deixou-se tocar pelo prazer que não se explica. Pela mais secreta e íntima das linguagens, a música.
O Alexandre tem quatro anos. À saída da sala, trauteou o alfabeto desenhado nas filas das cadeiras. Começa a saber ler. A música já mora nele.
Nos seus "verdes anos", Alexandre ensinou-me a alegria e a leveza de cada descoberta. Do que é novo e do que se renova. Sem promessas nem compromissos. "Verdes Anos".
Diana Pimentel, Docente universitária