Os poucos dias que separam a divulgação dos resultados do Pisa 2009 e os resultados do "Projecto Testes intermédios - Relatório 2010" da responsabilidade do GAVE (Gabinete de Avaliação Educacional do Ministério da Educação) podem levar alguns a pensar que cada um destes relatórios se referia a públicos alvo distintos.
O primeiro foi anunciado com pompa e circunstância pelo Primeiro-Ministro que, de peito estufado, sublinhava o reconhecimento internacional do êxito das suas políticas educativas. E não se cansou de elencar uma a uma, aquelas, que, tendo merecido a legítima contestação dos docentes portugueses, tinham-se revelado não só eficientes como e, sobretudo, eficazes. Tendenciosamente, esqueceu-se de dizer que os resultados foram sobretudo apresentados em relação à evolução dos dados anteriores e que, as margens de evolução de outros com quem se comparou eram inferiores às portuguesas. Omitiu, também, que os resultados do Programa PISA só permitem identificar os aspectos mais relevantes, sejam eles positivos ou negativos, do desempenho do sistema. Não os avalia e muito menos avalia as políticas educativas implementadas.
Por outro lado, os resultados do relatório do GAVE referiam que os alunos portugueses raciocinam mal e escrevem pior; que têm dificuldade em relacionar conhecimentos; que têm dificuldades gramaticais e em encontrar a solução para problemas básicos seja qual for a aérea disciplinar solicitada. E, como "cereja no topo do bolo" revelam-se incapazes de construir ideias próprias e demonstrar espírito crítico.
A contradição entre estes resultados é apenas aparente. Só demonstra que foram usadas diferentes metodologias na análise dos mesmos.
O que é, substancialmente diferente entre estes dois relatórios foi o tratamento dado quer pelos média quer pelo Primeiro-Ministro. No caso do relatório PISA tudo (leia-se aqui as politicas educativas implementadas) serviu para embandeirar em arco.
Tudo, excepto o trabalho docente. É obvio que saúdo a melhoria dos resultados dos alunos em relação aos obtidos em 2006. Mas a essência destes resultados fica a dever-se, essencialmente, ao trabalho desenvolvido por professores, alunos e demais comunidade educativa, apesar das medidas de política educativa que foram impostas.
Coisa que aliás estava patente no relatório e que, curiosamente, ninguém, nem a imprensa nem o próprio Primeiro-Ministro se lembrou de referir que mais de 90% dos alunos inquiridos têm uma boa imagem dos seus professores. Consta, igualmente, do relatório que os docentes portugueses têm a imagem mais positiva de entre os restantes docentes dos países da OCDE.
Uma imagem construída com base na sua, permanente, disponibilidade para todos atender e ajudar.
Estes dados deviam ter sido divulgados por todos os que fazem da classe docente o "pião das nicas". Por todos os que, só porque um dia andaram na escola, se intitulam donos de verdades absolutas sobre o sistema.
Os docentes portugueses são excelentes profissionais que lutam diariamente contra horários de trabalho esquizofrénicos, com sobrecargas burocráticas que não deviam ser obrigados a executar, com cortes salariais injustos e que, mesmo assim, e sempre em perpétuo movimento, todos os dias respondem com responsabilidade e compromisso para construção da ponte entre o presente e o futuro. Assumem, simplesmente e com convicção, a construção de todos os futuros!
Mas isto não interessa divulgar.
Marília Azevêdo